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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Apontamentos para uma história do rock brasileiro – Parte I – Tradição de rock

Na última edição do Pé na Porta, Clemente cobriu o lançamento do Almanaque do Rock, escrito por Kid Vinil, que já comprei, já li e recomendo a todos – especialmente os trechos a respeito do rock nacional. A erudição roqueira e a objetividade do texto, sem perda da densidade, já fazem dele bibliografia básica de qualquer fã de rock. É interessante notar, entretanto, que nas entrevistas com o autor e com o pessoal que encontrou no evento de lançamento do livro, Clemente insistiu numa frase: a história do rock brasileiro já foi feita, mas não foi escrita. Concordo plenamente. É que o texto de Kid Vinil, como todo almanaque, apesar de amplo e extremamente bem feito, tem a finalidade de apresentar sumariamente dados fundamentais a respeito do rock; falta no nosso mercado editorial uma obra de teor mais analítico do que esse, de talhe mais enciclopédico. Nem penso em me arrogar da tarefa, que exigirá pesquisa extensa e exaustiva, além de um conhecimento abrangente que não tenho, mas sugiro a seguir, para futuros autores corajosos – utilizando-me de contribuições da crítica literária – alguns pontos que, parece-me, não podem ser deixados de lado.

Antonio Candido, um dos estudiosos mais importantes da nossa literatura, afirma, de modo geral, que obras de escritores como Gregório de Matos Guerra, no distante século XVII, são o que ele chama de manifestações literárias. Sintetizando bastante, trata-se de textos que podem até alcançar bastante qualidade, mas que ainda têm como referencial a produção literária estrangeira. Para esse especialista, só temos literatura brasileira quando, em vez de produzirem por aqui obras de quilate e caráter estrangeiro, nossos escritores têm por referência outros escritores nacionais. É nesse momento que a tradição literária se forma, com autores escrevendo obras cujos temas, imagens e língua alcançam alguma repercussão no nosso público, sensibilizando-o, bem ou mal, porque, de alguma maneira, aguçam-lhe as impressões a respeito do próprio país.

De modo geral, pensando na história do rock brasileiro, acontece o mesmo: as primeiras manifestações do gênero por aqui não são quase nada além de versões das canções estrangeiras em português. Não é que não haja valor nessas manifestações: elas ganham importância pelo ineditismo, por apresentar ao público brasileiro um gênero jovem, que explodia nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, nos momentos iniciais, repete-se o que se faz fora, até que nossos grandes nomes estourem: na interpretação, por mais que doa à maioria dos roqueiros, a voz de Roberto Carlos e suas composições com Erasmo; na sonoridade eletrificada e até na invenção de instrumentos, os Mutantes, sobretudo na fase em que estavam próximos dos tropicalistas; no universo feminino, porque sem mulheres bonitas, inteligentes e rebeldes não se faz rock and roll, Rita Lee; no diálogo dos gêneros e das letras mais populares do Brasil com as ondas de ocultismo, paz-e-amor, demonologia e afins que vinham de fora, Raul Seixas. Parece-me que são essas as principais matrizes do nosso rock; gostemos delas ou não, é preciso passar por elas para entender o que se faz de rock no Brasil hoje. São esses, de formas diferentes, os nomes que dão tonalidade brasileira ao gênero estrangeiro.

Mas é só na década de oitenta que teremos o verdadeiro rock nacional, não porque esse momento seja mais especial do que outros, mas porque, fosse pela Bossa Nova, pelo Tropicalismo ou pela MPB engajada, já tinha havido por aqui algumas produções roqueiras – ou a rejeição a elas – para reverenciar ou para negar. O leitor deve notar que tentei evitar juízos de valor associados ao meu gosto ou à minha história pessoal. Quem me lê as colunas do Showlivre sabe que descobri o rock na década de oitenta; nem por isso superestimo aqueles anos. Mas me parece razoável a análise de que os primeiros que tinham um passado com que dialogar eram os roqueiros brasileiros da década de oitenta. Roberto, Erasmo, Mutantes, Rita, Raul: todos eles não viam, no passado, rock feito por aqui e, ainda que o vissem, ele era pouco mais do que uma reprodução do que se criava no exterior; coube a eles viver as experiências que devem ser relatadas nas primeiras páginas da história do nosso rock.

Além disso, também é preciso perceber que o rock brasileiro talvez seja um capítulo – longo, cheio de histórias dramáticas e divertidas, com lances de tragédia e de narrativa épica, mas ainda só um capítulo – da história da canção brasileira. É duro de admitir, mas se tentarmos observar as canções do rock nacional de oitenta com algum distanciamento, perceberemos que muito da força das composições da época vem da rejeição aos chamados “monstros sagrados” da MPB dos sessentas e setentas. Se pensarmos “de dentro para fora”, o rock foi o gênero que renovou a canção popular brasileira, num mercado saturado de amélias, banquinhos, violões, barquinhos, ritas-que-levam-sorrisos, odaras, rios-de-janeiros-que-continuam-lindos, cálices, bêbados e equilibristas. Os fãs de MPB não me torçam o nariz: também gosto dos monstros sagrados, mas é fato que a sonoridade deles já não respondia às demandas do mercado jovem na década de oitenta. A relação MPB-Rock Nacional não é de desigualdade, mas é de troca: para afirmarem-se como músicos brasileiros, os roqueiros precisavam rejeitar, ao menos inicialmente, o passado que lhes dizia pouco; os mais velhos, por sua vez, tiveram de se mexer, rever as próprias obras e verificar se ainda eram legítimos os temas e as sonoridades que os consagraram. Lembremos que Lobão rejeitava, há exatos vinte anos, a categoria “Pop Rock” no Prêmio Sharp de Música, reivindicando sempre um justíssimo lugar ao sol na apertada (ao menos para os roqueiros) praia da canção brasileira – que teve de ser invadida. E também façamos justiça à tradição de nossa canção: independentemente de gostarmos deles ou não, de preferirmos as obras mais antigas ou mais recentes, algo que Caetano e Gil sabem fazer muito bem é oxigenar as próprias criações; ao mesmo tempo, de todas as canções das décadas de 60 e 70, algumas das que mais se mantêm mais vivas são as de Chico Buarque, exatamente porque pertencem ao grupo das obras-primas, que não envelheceram com a redemocratização, o fim da ditadura e da censura.

As demandas de mercado, aliás, nos conduzem à inversão da perspectiva: observando, agora, de fora para dentro, sabemos que o rock é um gênero intimamente associado a um dos mais poderosos setores da indústria cultural – a indústria fonográfica, que está cambaleante, mas está longe de ir à lona. E, nesse sentido, com a finalidade de maximização dos lucros, o rock é um gênero que sempre esteve aberto a interferências de outros – especialmente os regionais, estranhos aos Estados Unidos e à Inglaterra, suas nações-mães. Uma avaliação da produção roqueira nas nações periféricas do capitalismo possivelmente levará à constatação de que, nelas, o rock se amalgama às manifestações musicais locais. No Brasil, a Tropicália já fazia isso nos festivais da canção: guitarras pesadas, Carmem Miranda e Jovem Guarda viviam em harmonia nas composições de Caetano, Gil, Mutantes e Rogério Duprat; Raul também se aproximou do universo brega desde muito cedo, pressagiando o Wander Wildner mais recente. Na década de oitenta, vivemos um aparente boom de rock “puro”, do ponto de vista da sonoridade; não nos esqueçamos, contudo, de que os Paralamas do Sucesso namoravam os ritmos caribenhos desde o início da carreira; Cazuza flertava tanto com a Bossa Nova e a MPB que abandonou o Barão Vermelho (quando este alçava vôos altíssimos) para imortalizar-se com canções como “Codinome Beija Flor”; a Legião Urbana, principalmente a partir de As Quatro Estações, foi moderando as canções pesadas, que, aliás, sempre estiverem ombro-a-ombro com as mais leves, como “Índios”, “Angra dos Reis” e até “Faroeste Caboclo”; Renato Russo, especialmente, encontrou no repertório italiano espaço para dar vazão a um universo passional que não existia, nem poderia existir, no rock. Até a banda brasileira que mais se aproximava do conceito americanófilo de “megabanda” tinha, no repertório do show, Secos e Molhados e Caetano Veloso: refiro-me ao RPM ao vivo, com “Flores Astrais” e “London, London”.

Um dos momentos mais férteis no que diz respeito às interferências regionais no rock é, sem dúvida, a década de 90, com o Chico Science e Nação Zumbi: Da lama ao caos é das grandes obras-primas da música brasileira – e não o seria se não fossem os elementos de rock que há ali. Roots do Sepultura é outra. Aliás, o Sepultura merece análise à parte – afinal faz rock brasileiro em inglês, afirmação que deixo para explicar outro dia, além de, nos dois últimos trabalhos, investigar o que há de rock em Dante Alighieri e Anthony Burgess. Sucessivamente, nos últimos tempos, as sonoridades e culturas regionais vêm assomando por meio do rock: os Los Porongas vêm do Acre; o Madame Saatan, de Belém do Pará; até o Ludovic tem como cenário para os monólogos dialogados de Jair uma São Paulo diferente, obscura, desconhecida.
Finalmente, apontando para a continuidade desta reflexão, o grande desafio de escrever um almanaque é fazer as escolhas do que ficará de fora. Kid Vinil acertou na mosca ao registrar bandas brasileiras desconhecidas do grande público, seja porque seus integrantes, depois, acabaram em outras bandas de maior alcance, seja porque, mesmo em escala reduzida, tiveram influência na formação do público de rock. Formação do público, composições em língua portuguesa, diferentes gêneros do rock brasileiro, importância dos canais de divulgação, suposta decadência das grandes gravadoras: são esses alguns assuntos que merecerão atenção em colunas futuras, que seguirão tentando contribuir para que se escreva uma história do rock brasileiro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Eu em desconcerto

Quando eu estava no colegial, a coisa que me dava mais raiva eram os caras mais velhos, de uns trinta ou quarenta anos, que sempre me diziam que o que eu ouvia não era novidade e que faltava à minha formação musical esta ou aquela banda. Admito: todas essas dicas me ensinaram muito. Por meio delas, aprendi alguns clichês que, embora desgastados, ainda me parecem verdadeiros: podemos espernear, gritar, chorar, mas, de fato, os Beatles fizeram quase tudo antes de todas as outras bandas; a voz do Bob Dylan é mesmo estranha, mas não haveria o rock que conhecemos hoje sem as canções dele; a Jovem Guarda é mesmo a matriz do rock no Brasil. Descobrir tudo isso era, às vezes, doloroso – eu queria, egoísta, que as bandas que eu ouvia fossem as melhores do mundo, mas nem sempre isso era verdade. O que não lhes tirava o mérito, nem fazia que fossem insignificantes na história do rock.

Descobri depois que, entre as muitas maravilhas de ser professor, a maior delas é oferecer aos alunos esse êxtase e essa esquisitice da descoberta: os olhos de alguns brilham quando percebem que os temas brasileiros que aparecem nas canções de hoje já eram explorados pelos escritores do século XIX, talvez até antes.

Eu também envelheci. Os alunos que primeiramente se aproximavam de mim quando eu dava aula no cursinho eram os roqueiros – o meu cabelão à Sepultura já dizia tudo na primeira aula. Há uns três anos, um garoto veio me mostrar canções de uma menina que começava a fazer sucesso – Pitty. Ouvi por alguns segundos uma delas e declarei, arrogante, que o garoto precisava descobrir o rock brasileiro dos anos oitenta, exatamente como faziam comigo os mais velhos. Senti-me superior: eu já conhecia melhor a história do rock nacional e dava uma de especialista. O aluno me ouviu atentamente e saiu um pouco atordoado: ele esperava minha opinião sobre uma roqueira atual, não uma aula de história do rock brasileiro.
O tempo passou, deixei de dar aulas no cursinho, cortei os cabelos. No último final de semana, navegando pelo Showlivre de madrugada com minha esposa, topamos com uma entrevista com a mesma Pitty, a respeito do lançamento do novo trabalho dela. Os flashes do show nos surpreenderam de tal modo que ficamos a madrugada toda assistindo à entrevista várias vezes, só pra ouvir as canções, como dois adolescentes. Impressionaram-nos o carisma da cantora e o peso do som. Pois bem, fui atrás do {Des}concerto ao vivo e voltei atrás na minha arrogância, porque voltei atrás no tempo: há bons anos eu não me empolgava tanto.

Pra começar, Pitty bebe em tantas tradições e as sintetiza de uma maneira tal que fiquei tonto: ela é mulher-menina roqueira brasileira, marcando presença numa galeria em que figuram nomes do quilate de Rita Lee e Cássia Eller; é também uma baiana como Raul Seixas e Marcelo Nova – os três transcendem, por meio do rock, o mero êxtase alienante do carnaval; apesar das diferenças de gênero, a interpretação é magnética como a de Elis Regina; as letras que mais chamam a atenção versam sobre a alienação, os valores e a velocidade do nosso mundo, com questionamentos que guardam raízes no melhor rock engajado.

"Anacrônico", por exemplo, parece uma versão moderna da "Velha roupa colorida" de Belchior, imortalizada por Elis Regina. O tema não é novo e lembra até um soneto de Camões, o famoso “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”: as transformações do mundo levam às mudanças de valores. Até aí, nenhuma novidade, um português do século XVI já havia percebido isso. Acontece que, na canção de Pitty, saquei que “surgem novos valores / Vindos de outras vontades / Alguns caindo por terra / pra outros poderem crescer / Caem um, dois, três, caem quatro / A Terra girando não se pode parar”, ou seja, percebi que não há um processo evolutivo, mas apenas uma substituição eterna, em que os tais valores são descartáveis como um produto qualquer. As ambições, entretanto, são “mais fortes, somadas com as anteriores”, num processo de acumulação. Note, leitor: os valores caem – verbo que, em nosso cotidiano, também está relacionado à derrota, à violência – e são substituídos enquanto as ambições ganham corpo. Assusta a lucidez dessa constatação. Não estamos no terreno fácil das letras alegres.

"Admirável chip novo" é alusão direta à obra de Aldous Huxley, Admirável mundo novo. E essa citação, pela facilidade evidente, oculta uma outra: uma canção de Gilberto Gil de nome "Futurível" em que o eu que canta – um “cientista detentor da tecnologia”, nas palavras do próprio autor – diz ao homem que não se preocupe com o processo pelo qual está passando: os olhos serão de cobre, os braços de estanho; a humanidade mutante será mais feliz porque “Na nova mutação / a felicidade é feita de metal” e o sistema do cientista manterá a consciência do ser. A versão nada animadora de Pitty, que aprofunda a ironia do ministro: “Pane no sistema, alguém me desconfigurou / Aonde estão meus olhos de robô? / Eu não sabia, eu não tinha percebido / Eu sempre achei que era vivo”. E depois, mais cruel, depois da reinstalação do sistema (palavra cujo duplo sentido enriquece a interpretação): “Pense, fale, compre, beba / Leia, vote, não se esqueça / Use, seja, ouça, diga / Tenha, more, gaste, viva”. Gostei mais ainda: o otimismo fácil a respeito da evolução tecnológica omite ou oculta o processo alienante que ela traz consigo. Em "Déjà Vu", Pitty já avisava que nenhuma doutrina a convence – sensação da qual tenho partilhado cada vez mais.

Em "Semana que vem", fiquei sabendo que “Nós não temos todo o tempo do mundo” – e tive de concordar com essa subversão de um dos mais importantes versos da minha geração. Não há aí mero desfrute irresponsável da vida, porque, em "Memórias", descobri que só dando o melhor de si é que se consegue fazer que as coisas ao redor se movam. Acho que {Des}concerto ao vivo me sensibilizou tanto porque ali pulsa uma vontade incontrolável de mudar o mundo e porque a maioria de suas canções diz respeito ao tempo que eu sei que já não tenho: as canções da Pitty transportaram-me, na passagem de um verso, para o presente.