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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Apontamentos para a história do rock brasileiro - Parte II - Los Porongas e a formação do público


Assistir ao show de lançamento do DVD dos Los Porongas no SESC Pompéia na última quinta-feira, dia 12 de fevereiro, foi uma revelação para o público que estava lá – embora talvez nem todas as pessoas tenham percebido a importância do evento de que faziam parte.

Não é a primeira vez que os acreanos aparecem aqui na Métrica (leia análise da canção “Nada Além” ou o comentário sobre show da banda na Virada Cultural no palco independente, em 2008). Já foi dito por aqui, por isso é desnecessário repetir, que Diogo Soares talvez seja o maior poeta da nova geração do rock brasileiro; do mesmo modo, é um pleonasmo afirmar que a banda, pela postura sonora livre da lógica das grandes gravadoras, aponta para o futuro da canção brasileira. Isto é: aponta para o Cruzeiro, poderíamos dizer - sempre lembrando que, na bandeira brasileira, a constelação do Cruzeiro do Sul está representada como se fosse observada por um observador hipotético, que não estaria na superfície da Terra.

Acertadamente, no documentário Música de Trabalho, de Daniel Dias (assista ao filme inteiro no You Tube clicando aqui), Lobão afirma que a canção independente é “a trilha sonora" deste tempo e que, no futuro, é nela que os historiadores buscarão a definição do início do século 21:




Arrisco dizer que, nesse estudo vindouro, talvez os Porongas figurem nos primeiros parágrafos, ou ganhem um capítulo todo para eles.

Trata-se do seguinte: quem assistir ao DVD encontrará a canção S.O.S, de 1981, do Grupo Capu, provavelmente desconhecido da maioria dos leitores paulistanos – e deste autor também, até a última quinta. Segundo Diogo, essa banda pode ser considerada a precursora do rock autoral no Acre. O som é rock puro, pesado, sem frescuras, de letra atuante, com um pé no imaginário psicodélico dos anos 70, com espaçonave que cai e impressiona o povo, e outro no Brasil do presente e do futuro, que não muda de jeito nenhum: inflação e dólar que seguem prejudicando o povo que “paga para nascer”, “vive por viver” e “vive de aluguel”. Em palavras simples: a pegada do som e a letra seguem atuais, talvez porque o Grupo Capu, há quase trinta anos, podia observar o Brasil por dentro e por fora - e já percebia que o país não mudaria tanto quanto se esperava.

Mais marcantes, entretanto, são os comentários do baterista Jorge Anzol no making off do DVD – extremamente emocionado com imagens dos Porongas tocando com o baterista do Grupo Capu, Hermógenes, no Festival Varadouro de 2008, a que o leitor pode assistir abaixo:




Talvez o próprio Anzol e seus parceiros de banda não saibam, mas aquela passagem de baquetas e a gravação de S.O.S. no DVD escrevem um capítulo na história da formação de um público inteligente do rock nacional.

Explicando: pagar o tributo para uma banda local – que talvez só não tenha feito sucesso na década de 80 devido à impossibilidade de ingressar no Eixo Rio-São Paulo de rock, porque não podia contar com a internet e todos os recursos que conhecemos hoje – é uma forma de criar tradição, de ensinar ao público que não interessam apenas os últimos sucessos radiofônico-descartáveis. Mais importante ainda: é uma forma de ensinar ao público de São Paulo essas lições.

Numa edição recente do Thunderview, Daniel Belleza afirmou que o público da capital é careta e não quer conhecer bandas novas - nem as do Acre:




Belleza está coberto de razão ao dizer isso. Prevalece nesta cidade a lógica de mercado e do consumo rápido, o que leva, segundo o mesmo Daniel Belleza, à ausência de festivais de música independente por aqui e até à omissão das grandes bandas, que deveriam abrir espaço para as pequenas.

E é aí também que os Porongas são grandes: em lugar de gravar no DVD uma canção com suposto “apelo de mercado”, de uma banda grande, o que poderia “potencializar as vendas”, resolvem os acreanos reverenciar os conterrâneos que, de certa forma, iniciaram o sonho do rock fora do eixo das grandes capitais; em lugar de render-se à lógica da estética vendida do mainstream paulistano, deixam claro no DVD que têm uma marca forte que trazem do Acre – a sua “contradição primeira”, a “urbanidade amazônica” – e que não vão despojar-se dela.

“O rock, antes de ser um som, é uma atitude, e acredito que o Acre seja rock n’ roll na sua essência”, afirma Diogo no DVD. Acreditemos no vocalista: na essência da postura e da sonoridade, os Los Porongas são combativos, porque não se rendem aos apelos fáceis para conquistar o público – preferem, ao contrário, formar o público mostrando a ele a pluralidade em detrimento da massificação de mercado; optam pela tradição e pela reverência aos mestres em vez do consumo rápido da arte de plástico das grandes gravadoras, que apresentam ao “mercado” uma novidade envelhecida por semana.

Aprendamos em São Paulo, portanto, como é que se forma público de rock – tentemos aprender a correr pelas ruas como se corre pelos rios, rumo ao Cruzeiro. Observado, evidentemente, pelos Los Porongas, que fazem parte de nosso tempo e de nosso país, mas que têm a capacidade de transportar-nos para fora do aqui e do agora, para que pensemos a respeito do Brasil, olhando-o, criticamente, por dentro e de fora.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Apontamentos para uma história do rock brasileiro – Parte I – Tradição de rock

Na última edição do Pé na Porta, Clemente cobriu o lançamento do Almanaque do Rock, escrito por Kid Vinil, que já comprei, já li e recomendo a todos – especialmente os trechos a respeito do rock nacional. A erudição roqueira e a objetividade do texto, sem perda da densidade, já fazem dele bibliografia básica de qualquer fã de rock. É interessante notar, entretanto, que nas entrevistas com o autor e com o pessoal que encontrou no evento de lançamento do livro, Clemente insistiu numa frase: a história do rock brasileiro já foi feita, mas não foi escrita. Concordo plenamente. É que o texto de Kid Vinil, como todo almanaque, apesar de amplo e extremamente bem feito, tem a finalidade de apresentar sumariamente dados fundamentais a respeito do rock; falta no nosso mercado editorial uma obra de teor mais analítico do que esse, de talhe mais enciclopédico. Nem penso em me arrogar da tarefa, que exigirá pesquisa extensa e exaustiva, além de um conhecimento abrangente que não tenho, mas sugiro a seguir, para futuros autores corajosos – utilizando-me de contribuições da crítica literária – alguns pontos que, parece-me, não podem ser deixados de lado.

Antonio Candido, um dos estudiosos mais importantes da nossa literatura, afirma, de modo geral, que obras de escritores como Gregório de Matos Guerra, no distante século XVII, são o que ele chama de manifestações literárias. Sintetizando bastante, trata-se de textos que podem até alcançar bastante qualidade, mas que ainda têm como referencial a produção literária estrangeira. Para esse especialista, só temos literatura brasileira quando, em vez de produzirem por aqui obras de quilate e caráter estrangeiro, nossos escritores têm por referência outros escritores nacionais. É nesse momento que a tradição literária se forma, com autores escrevendo obras cujos temas, imagens e língua alcançam alguma repercussão no nosso público, sensibilizando-o, bem ou mal, porque, de alguma maneira, aguçam-lhe as impressões a respeito do próprio país.

De modo geral, pensando na história do rock brasileiro, acontece o mesmo: as primeiras manifestações do gênero por aqui não são quase nada além de versões das canções estrangeiras em português. Não é que não haja valor nessas manifestações: elas ganham importância pelo ineditismo, por apresentar ao público brasileiro um gênero jovem, que explodia nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, nos momentos iniciais, repete-se o que se faz fora, até que nossos grandes nomes estourem: na interpretação, por mais que doa à maioria dos roqueiros, a voz de Roberto Carlos e suas composições com Erasmo; na sonoridade eletrificada e até na invenção de instrumentos, os Mutantes, sobretudo na fase em que estavam próximos dos tropicalistas; no universo feminino, porque sem mulheres bonitas, inteligentes e rebeldes não se faz rock and roll, Rita Lee; no diálogo dos gêneros e das letras mais populares do Brasil com as ondas de ocultismo, paz-e-amor, demonologia e afins que vinham de fora, Raul Seixas. Parece-me que são essas as principais matrizes do nosso rock; gostemos delas ou não, é preciso passar por elas para entender o que se faz de rock no Brasil hoje. São esses, de formas diferentes, os nomes que dão tonalidade brasileira ao gênero estrangeiro.

Mas é só na década de oitenta que teremos o verdadeiro rock nacional, não porque esse momento seja mais especial do que outros, mas porque, fosse pela Bossa Nova, pelo Tropicalismo ou pela MPB engajada, já tinha havido por aqui algumas produções roqueiras – ou a rejeição a elas – para reverenciar ou para negar. O leitor deve notar que tentei evitar juízos de valor associados ao meu gosto ou à minha história pessoal. Quem me lê as colunas do Showlivre sabe que descobri o rock na década de oitenta; nem por isso superestimo aqueles anos. Mas me parece razoável a análise de que os primeiros que tinham um passado com que dialogar eram os roqueiros brasileiros da década de oitenta. Roberto, Erasmo, Mutantes, Rita, Raul: todos eles não viam, no passado, rock feito por aqui e, ainda que o vissem, ele era pouco mais do que uma reprodução do que se criava no exterior; coube a eles viver as experiências que devem ser relatadas nas primeiras páginas da história do nosso rock.

Além disso, também é preciso perceber que o rock brasileiro talvez seja um capítulo – longo, cheio de histórias dramáticas e divertidas, com lances de tragédia e de narrativa épica, mas ainda só um capítulo – da história da canção brasileira. É duro de admitir, mas se tentarmos observar as canções do rock nacional de oitenta com algum distanciamento, perceberemos que muito da força das composições da época vem da rejeição aos chamados “monstros sagrados” da MPB dos sessentas e setentas. Se pensarmos “de dentro para fora”, o rock foi o gênero que renovou a canção popular brasileira, num mercado saturado de amélias, banquinhos, violões, barquinhos, ritas-que-levam-sorrisos, odaras, rios-de-janeiros-que-continuam-lindos, cálices, bêbados e equilibristas. Os fãs de MPB não me torçam o nariz: também gosto dos monstros sagrados, mas é fato que a sonoridade deles já não respondia às demandas do mercado jovem na década de oitenta. A relação MPB-Rock Nacional não é de desigualdade, mas é de troca: para afirmarem-se como músicos brasileiros, os roqueiros precisavam rejeitar, ao menos inicialmente, o passado que lhes dizia pouco; os mais velhos, por sua vez, tiveram de se mexer, rever as próprias obras e verificar se ainda eram legítimos os temas e as sonoridades que os consagraram. Lembremos que Lobão rejeitava, há exatos vinte anos, a categoria “Pop Rock” no Prêmio Sharp de Música, reivindicando sempre um justíssimo lugar ao sol na apertada (ao menos para os roqueiros) praia da canção brasileira – que teve de ser invadida. E também façamos justiça à tradição de nossa canção: independentemente de gostarmos deles ou não, de preferirmos as obras mais antigas ou mais recentes, algo que Caetano e Gil sabem fazer muito bem é oxigenar as próprias criações; ao mesmo tempo, de todas as canções das décadas de 60 e 70, algumas das que mais se mantêm mais vivas são as de Chico Buarque, exatamente porque pertencem ao grupo das obras-primas, que não envelheceram com a redemocratização, o fim da ditadura e da censura.

As demandas de mercado, aliás, nos conduzem à inversão da perspectiva: observando, agora, de fora para dentro, sabemos que o rock é um gênero intimamente associado a um dos mais poderosos setores da indústria cultural – a indústria fonográfica, que está cambaleante, mas está longe de ir à lona. E, nesse sentido, com a finalidade de maximização dos lucros, o rock é um gênero que sempre esteve aberto a interferências de outros – especialmente os regionais, estranhos aos Estados Unidos e à Inglaterra, suas nações-mães. Uma avaliação da produção roqueira nas nações periféricas do capitalismo possivelmente levará à constatação de que, nelas, o rock se amalgama às manifestações musicais locais. No Brasil, a Tropicália já fazia isso nos festivais da canção: guitarras pesadas, Carmem Miranda e Jovem Guarda viviam em harmonia nas composições de Caetano, Gil, Mutantes e Rogério Duprat; Raul também se aproximou do universo brega desde muito cedo, pressagiando o Wander Wildner mais recente. Na década de oitenta, vivemos um aparente boom de rock “puro”, do ponto de vista da sonoridade; não nos esqueçamos, contudo, de que os Paralamas do Sucesso namoravam os ritmos caribenhos desde o início da carreira; Cazuza flertava tanto com a Bossa Nova e a MPB que abandonou o Barão Vermelho (quando este alçava vôos altíssimos) para imortalizar-se com canções como “Codinome Beija Flor”; a Legião Urbana, principalmente a partir de As Quatro Estações, foi moderando as canções pesadas, que, aliás, sempre estiverem ombro-a-ombro com as mais leves, como “Índios”, “Angra dos Reis” e até “Faroeste Caboclo”; Renato Russo, especialmente, encontrou no repertório italiano espaço para dar vazão a um universo passional que não existia, nem poderia existir, no rock. Até a banda brasileira que mais se aproximava do conceito americanófilo de “megabanda” tinha, no repertório do show, Secos e Molhados e Caetano Veloso: refiro-me ao RPM ao vivo, com “Flores Astrais” e “London, London”.

Um dos momentos mais férteis no que diz respeito às interferências regionais no rock é, sem dúvida, a década de 90, com o Chico Science e Nação Zumbi: Da lama ao caos é das grandes obras-primas da música brasileira – e não o seria se não fossem os elementos de rock que há ali. Roots do Sepultura é outra. Aliás, o Sepultura merece análise à parte – afinal faz rock brasileiro em inglês, afirmação que deixo para explicar outro dia, além de, nos dois últimos trabalhos, investigar o que há de rock em Dante Alighieri e Anthony Burgess. Sucessivamente, nos últimos tempos, as sonoridades e culturas regionais vêm assomando por meio do rock: os Los Porongas vêm do Acre; o Madame Saatan, de Belém do Pará; até o Ludovic tem como cenário para os monólogos dialogados de Jair uma São Paulo diferente, obscura, desconhecida.
Finalmente, apontando para a continuidade desta reflexão, o grande desafio de escrever um almanaque é fazer as escolhas do que ficará de fora. Kid Vinil acertou na mosca ao registrar bandas brasileiras desconhecidas do grande público, seja porque seus integrantes, depois, acabaram em outras bandas de maior alcance, seja porque, mesmo em escala reduzida, tiveram influência na formação do público de rock. Formação do público, composições em língua portuguesa, diferentes gêneros do rock brasileiro, importância dos canais de divulgação, suposta decadência das grandes gravadoras: são esses alguns assuntos que merecerão atenção em colunas futuras, que seguirão tentando contribuir para que se escreva uma história do rock brasileiro.

O fantasma de Padre José de Anchieta na Virada Cultural (ou as perspectivas da canção independente brasileira em estilo inspirado em Mário de Andrade)

Os leitores mais assíduos desta coluna hão de lembrar que me encontrei com o fantasma de Mário de Andrade, durante a gravação do DVD dos Inocentes. Foi experiência única: juro que vi aquele poeta e pesquisador da cultura popular brasileira, primeiramente, assustado com a barulheira das guitarras e o acotovelamento dos punks mais jovens; depois, já convencido de que o poeta que ali cantava e de que o público que ali berrava eram tão brasileiros quanto ele, deixou-se levar, cerrou os punhos e bradou Pânico em SP – só não digo que o fez “a plenos pulmões” porque o fantasma de Mário de Andrade não os tem, e, se os tivesse, não seriam plenos, desgastados que estariam do cigarro. Não disse a ninguém que o poeta estava ali – tive a impressão de que ele não queria ser reconhecido, nem queria roubar a cena dos Inocentes: ouviu o som, pulou e gritou bastante, mandou um beijo, de longe, para o Clemente, que acenou agradecendo, e foi-se embora, cotejar os resultados da pesquisa sobre música popular que fez com aquela forma tão explosiva de canção. Tive medo: somente eu teria visto o líder modernista no meio do êxtase do público? Era alucinação, ou eu o vira de fato?

Deixei pra lá essa história, que não sou de dar bola às coisas do outro mundo. Mas elas insistem em me seguir. Num sábado recente de calor infernal, pensei em dormir no início da noite, curtir meus cachorros, acordar cedinho no domingo e tentar levar uma vida normal; revirando na cama, meio acordado, meio dormindo, tive a impressão de tomar um cutucão áspero, como se alguém tivesse usado um longo graveto de madeira cheio de areia para acordar-me. Aceitei: era um sinal. E lá fui a um show do Ludovic, aberto pelo Madame Saatan, onde encontrei Diogo do Los Porongas e conheci o pessoal do Macaco Bong. Fosse quem fosse o ser que me tivesse acordado, por que teria me mandado ali? Tomei coragem e disse ao acreano, depois de umas cervejas, que o rock independente brasileiro tinha força para minar a pasteurização e a alienação engendrada pelas grandes gravadoras, para conscientizar e sensibilizar o público, para mudar o Brasil – talvez o mundo.

Mesmo cutucão na terça-feira: era dia de assistir ao Julia Car na choperia do Sesc Pompéia, com a participação do Clemente. Depois do show, aprendi com o mestre, a quem ofereci uns chopes: “A cena independente hoje é mais forte do jamais foi; o que falta é criar uma indústria independente”. Tomei os chopes e fui para casa.

No sábado, dia da Virada Cultural, quase dormindo, ouvi frases em tupi sussurrando-me ao ouvido; os cachorros latiram, sinal aziago, pulei assustado da cama: seria o fantasma do poeta modernista? Não dormia, não dormia, não dormia: vou pra Virada, ao menos divido a insônia com mais um milhão de pessoas. Acordei a mulher, pegamos o metrô. E foi no Pátio do Colégio, berço da cidade de São Paulo, que entendi tudo que acontecera comigo ao longo daquela semana.



Primeiro: foi lá que arrumei o que fazer ao longo de toda a semana seguinte – pesquisar as bandas instrumentais independentes que têm surgido e eu não conhecia. Assustei-me: o fantasma, ou o que quer que tenha me acordado ao longo da semana, poderia ser algum dos integrantes do Trilöbit, todos eles extraterrestres. E perguntei assim: estará o público pronto para bandas cujas canções não têm letra? Concluí que sim, já que muitos dos que estavam por ali vibravam com os alienígenas. E entendi da seguinte maneira: o que talvez os independentes ainda estejam descobrindo é como formar público – e perceba, leitor, que formar público é diferente de ganhar público. Na indústria fonográfica tradicional, as canções são produtos; o capital destinado à produção é investimento; a diversidade de gêneros (que no fundo repetem a mesma coisa) é mix de produtos; os ganhos auferidos ao final são lucro ou retorno sobre o investimento. Ora, já vem se delineando – espero que já venha se delineando – na música independente uma outra lógica: as canções ou músicas são obras de arte; a produção, de custos baixos e de qualidade, é sobretudo resultado de paixão; a diversidade é condição necessária, já que a pretensão não é fazer que o artista se torne produto consumível, mas que ele seja admirado pelas qualidades estéticas intrínsecas a sua obra; a grana obtida ao final é ganha-pão que dá vazão a mais criatividade. E essa é meio que uma síntese das coisas que eu tinha pensado no dia em que encontrei Diogo dos Los Porongas, que, não demorou muito, subiu no palco e bradou, para o público que se avolumava a olhos vistos e para todos os fantasmas que dormem na cripta da Sé, perto dali: “Esta é a prova de que não é preciso depender de grandes gravadoras para fazer música no Brasil! Viva a internet!”. Aí entendi: o acesso barato às tecnologias de gravação e a internet, que favorece a difusão, fazem que a parafernália da indústria fonográfica possa ser dispensável.


O problema foi que Diogo gritou alto, mas tão alto, que despertou fantasmas demais – inclusive aquele que me cutucara a semana toda. Já havia na frente do Pátio do Colégio caciques indígenas, bandeirantes, degredados e pessoas queimadas pela inquisição. E junto a esses fantasmas todos, na frente do antigo colégio dos jesuítas, eu vi – duvidei de meus olhos, mas eu vi mesmo, e juro que não havia tomado nada – eu vi o fantasma do Padre José de Anchieta. Ele trazia nas mãos o graveto que usara para escrever na areia da praia; e sorria, porque começava a entender os equívocos de seu tempo. José de Anchieta reviu a própria obra – ele, que chegou a escrever autos em língua tupi para levar a fé cristã aos indígenas, percebeu que lhe faltou fé para acreditar que nesta terra a diversidade faria milagres. E dizia a canção: “Tudo ao contrário então / Tudo à vontade então”. E o padre sacou que o público que se agrupava por ali tinhas as linhas de erê tatuadas nas costas, como havia cantado uma menina, dias antes, no SESC Pompéia. E percebeu que o idioma dos indígenas que ele tentara aculturar dava origem ao nome do conjunto que ali tocava.
Ora: eu passara vontade de falar com o fantasma do Mário de Andrade; não deixaria passar a chance de bater um papo com o Anchieta. Diria a ele que não se impressionasse: as mulheres tinham alcançado um papel fundamental no mundo, eram poetisas, tinham a chance de expressar-se, cumpriam papel fundamental na nova canção independente brasileira – elas eram consideradas gente, eram respeitadas, assim como os povos escravizados e dizimados pelos europeus. Mas a multidão crescia, Diogo urrava no palco, as pessoas não paravam de chegar e dançar e pular. E eu precisava dizer ao padre que aquela cidade, que começara numa escola jesuíta na época dele, hoje tinha quinze milhões de pessoas, mas era ainda pequena para abrigar a multiplicidade de urbanidades que se agrupavam ali – eram acreanos, paraenses, cariocas, além dos paulistanos, mas também sul-mato-grossenses, extraterrestres, gaúchos, nordestinos, todas essas pessoas do Brasil, de norte a sul, rumo ao cruzeiro; eram urbanidades amazônicas, do cerrado, do sertão, do litoral, do concreto mesmo de São Paulo, todas essas urbanidades. Anchieta acenou para o Diogo, que respondeu; o sacerdote, então, voltou as costas para mim, dirigiu-se para o interior da escola e eu gritava, Padre, Padre, por que eu vejo todos os fantasmas de escritores, mas eles só acenam para os vocalistas das bandas?, e era essa a pergunta que eu precisava que fosse respondida, porque eu já havia entendido, e me passava pela cabeça naquele exato momento, que a nova canção independente brasileira tem autonomia para criar, mas tem pela frente grandes desafios, eu não queria estar na pele dela, o primeiro desafio é a formação de um público que não procure estrelas, mas artistas; que queria desfrutar de obras de arte, não consumi-las; o segundo é o máximo aproveitamento das tecnologias disponíveis para a criação e a divulgação de suas obras, sem repetir os vícios da grande indústria fonográfica; o terceiro é lutar cada vez mais pela profissionalização dos músicos, sem explorá-los, sem lesar o que eles têm de mais genuíno, oras, sua arte; o quarto é fazer que essa profissionalização componha o que o Clemente chamou de criar uma indústria independente – toda composta numa lógica nova, sem que músicos e suas obras sejam entendidos como produtos, formando um público que aprecie a arte. E tudo isso eu pensei num átimo de segundo, enquanto gritava Padre, Padre, por que eu vejo todos os fantasmas de escritores, mas eles só acenam para os vocalistas das bandas?, e ele voltou-se para mim e respondeu, Ora, uns homens são como antenas receptoras das expectativas, das aflições, dos amores e das contradições do seu tempo, é a esses que se chamam trovadores, poetas, hoje cancionistas, aqui os roqueiros independentes, é a esses homens que nós, os fantasmas, acenamos (eu achei esse jeito de falar muito moderno para um padre, acho que o rock não lhe fez bem, eu esperava que ele me respondesse em português arcaico). E foi-se o padre. E fiquei eu com um monte de teorias, hipóteses, dúvidas, anseios, sonhos – e fui perguntar ao Diogo se ele vira o fantasma, se acenara mesmo para o padre. Mas esqueci, e só falei de mudar o mundo por meio da nova música independente brasileira.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

As boas-vindas a Sidney Filho e as boas-novas dos Los Porongas

Acabei de ler o texto do novo colunista do Showlivre, Sidney Filho, e fiquei bastante empolgado. Depois da iniciativa de AD Luna, que nos apresentou a proposta do Showlivre Nordeste na coluna de 08 de agosto de 2007, agora ganhamos um autor cuja proposta é divulgar “o que está acontecendo no cinema, na música e nas artes de um modo geral da região Norte”. Iniciativa louvável, porque – ainda bem! – as manifestações culturais do Brasil transcendem, e muito, as das regiões Sudeste e Sul. Pois bem: a leitura atenta da primeira coluna de Sidney lembra que a Rolling Stone deste mês publicou a lista dos melhores discos nacionais de 2007, incluindo entre eles o álbum de uma banda acreana chamada Los Porongas. A revista deposita nessa banda as perspectivas de futuro do rock nacional. Boas-vindas ao novo colunista por chamar a atenção dos leitores para o Los Porongas. Explico o porquê.

Logo que comecei a escrever esta coluna, alguns leitores fiéis, em contato por email, questionaram-me a desatualização, argumentando que eu comentava, na maioria de meus artigos, canções de bandas dos anos 80: Legião Urbana, Titãs, Inocentes, Camisa de Vênus. Lembrei, em resposta, que, embora já com vinte anos ou mais de estrada, todas essas bandas, por um motivo ou por outro, ainda se fazem presentes, afinal suas canções ainda são atuais – pelo menos foi isso que tentei demonstrar nas colunas. Lembrei, ainda, que muitas delas continuam criando obras de grande qualidade. Mas a crítica dos leitores me parecia, de modo geral, procedente. Já contei aqui que fiquei, com o passar do tempo, preconceituoso e ranzinza, sobretudo no que diz respeito a trabalhos de bandas mais recentes. Como dei alguma razão aos leitores, fui atrás de Ludovic e Pitty, cujos trabalhos desconhecia, e me encantei com eles.

Aprendendo a pesquisar novidades no Myspace, deparei-me com os tais Los Porongas, que entraram definitivamente para minha galeria de prediletos. Graças ao site oficial dos caras, descobri a maravilha dos downloads na internet (pasmem, leitores, nunca baixei ilegalmente uma música sequer) e aprendi que “O sonho americano do rock brasileiro, impulsionado pelo boom mercadológico da década de oitenta, que se sustentou até o final dos anos 90, acabou”. A disponibilização de todo o conteúdo do CD não me impediu de comprá-lo; surpreendeu-me ainda mais o posicionamento da banda a respeito do mercado atual da música e a consciência a respeito do multiculturalismo brasileiro e dos movimentos de música independente. Comentando iniciativas como o Circuito Fora do Eixo e a Associação Brasileira de Festivais Independentes, o vocalista Diogo Soares afirma, no site, que “Com esse aquecimento cultural, as cenas locais produzem uma espécie de consciência coletiva de que é possível interferir no mundo, por mais distante que se esteja dos grandes centros culturais”. Em poucas palavras: os Los Porongas não só fazem rock brasileiro de primeira, como também compreendem com clareza o papel que cumprem na nova geração, proclamando a independência do conteúdo de sua obra por meio da veiculação via internet, fugindo aos moldes da indústria fonográfica.

Aos ouvidos de um habitante bitolado do e no Eixo Rio-São Paulo, a frase “estou ouvindo uma banda acreana de rock” pode soar estranha. Dependendo do interlocutor, pode até aparecer uma ponta de preconceito do tipo “e tem rock no Acre?”. Respondo com “Nada além”, terceira faixa do trabalho dos caras. Pode-se entender essa canção como uma reflexão sobre o mundo moderno do trabalho. “Uma palavra quente rente à boca / Alguma roupa rota ou assinada / Nada além de esconderijo / Tudo bem” são os primeiros versos, que alertam a respeito de quanto um emprego qualquer pode servir de muleta para uma vida sem sal: a vontade de dizer algo e não fazê-lo, o eterno baixar de cabeça às etiquetas e à idéia de que somos respeitáveis porque temos ocupação (ainda que ela nos faça mal) e o “tudo bem” diário que dizemos a tudo que nos humilha. “Anseios temperados com receios / Paranóias e outras dúvidas” são boa descrição da vida cotidiana do trabalho. E, na explosão da canção, uma seqüência de infinitivos verbais – grosseiramente, os “nomes” dos verbos, que, na língua portuguesa, são sempre terminados em “ar”, “er” e “ir”, além do verbo “pôr” e seus derivados –, formas que não indicam tempo nem modo e que, em “Nada além”, representam o “infinitivo perpétuo de vinte e quatro lentas horas”: “Ter que acordar/ Sorrir / Cumprir / Cumprimentar / Admitir / Fingir / Dançar, dançar...”. Não sei se o leitor percebeu, mas estamos diante de descrição sensível e desesperada da sensação de que as obrigações diárias, que muitas vezes nada têm a ver com o que de fato sentimos, acabam por tornar nosso cotidiano uma mera repetição de normas de boa conduta. É o “Nosso pequeno moderno mundo pequeno moderno / Nada doce, nada eterno / Infinidade de termos / Para sermos iguais / Nada além do que satisfaz”. A riqueza poética desse trecho está na simetria dos adjetivos “pequeno” e “moderno”, referindo-se ao substantivo “mundo” – que não é doce nem eterno, ao contrário de nosso dia-a-dia massacrante – e à multiplicidade de significação da palavra “termos”, que pode indicar as infinitas palavras que existem para designar o cotidiano imutável, ou o verbo “ter”, na primeira pessoa do plural, ligado a “nada além do que satisfaz”, interpretação que indica que tudo que possuímos nos aliena e nos oferece uma satisfação passageira. Em resumo: trata-se de uma canção a respeito das contradições do nosso pequeno mundo moderno, revelando que uma banda de rock acreana talvez esteja mais ciente do que ocorre no Brasil e no mundo do que muitos habitantes do Eixo Rio-São Paulo, enclausurados nos seus mundinhos intra-muros dos condomínios fechados.

Acrescente a essa informação, leitor, o seguinte trecho de texto do encarte do CD, espécie de Manifesto Poronga, em que se divulga a proposta da banda: “Contradição primeira. Urbanidade amazônica. Seiva que escorre nas veias. Ceia do cosmopolitismo. Correr pelos rios assim como se corre nas ruas”. Chamei o texto do encarte de “manifesto” porque o estilo lembrou-me muito o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, com frases sem verbo, incisivas, diretas. Mais do que isso: o mais radical de nossos modernistas propunha, na década de 20, que os artistas brasileiros devorassem criticamente toda a cultura que vinha de fora, de modo a sintetizá-la em manifestações culturais que, guardando características nacionais, projetassem universalmente o Brasil. De certa forma, é exatamente o que propõem os Porongas na “urbanidade amazônica” e na corrida pelos rios assemelhada à corrida nas ruas. “Cultura pop?ular. Fora dos eixos e por dentro do sim”, no mesmo manifesto, é trecho que renova a proposta de combinação do popular e do pop, fora do Eixo Rio-São Paulo e para além das normas, fazendo rock brasileiro utilizando-se de referências locais. Aliás, a respeito delas, agrada-me bastante a declaração de Caetano Veloso, feita no período da Tropicália, movimento também influenciado pela Antropofagia oswaldiana, citada por Augusto de Campos, no artigo “Viva a Bahia-ia-ia!”: “Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas”. Certamente, os Porongas não padecem das dificuldades técnicas de que fala Caetano, afinal utilizam-se de novas tecnologias para divulgar sua obra e interferir no mundo, mas preservam a convicção de negar-se a “folclorizar”, isto é, exagerar o elemento regional de sua obra, a Amazônia, afinal as letras não carregam nos lugares-comuns a respeito da floresta, com animais exóticos e tribos indígenas desconhecidas. O que vemos ali, de fato, é a urbanidade amazônica, sem que se carregue nas tintas do elogio ao pitoresco e ao bizarro, que tanto atrapalhou nossa literatura e nossa canção popular.

Lembremos, finalmente, que “porongas” eram suportes para uma lamparina de querosene, colocados na cabeça dos seringueiros para iluminar-lhes o caminho durante as madrugadas nos seringais, indício que a banda parece ter ciência de que serve de guia para o público, principalmente o do Eixo Rio-São Paulo, revelando-lhe um Brasil que ele desconhece. O projeto vai, contudo, além: em “Ao Cruzeiro” – canção que parece aludir, segundo o que li em alguns artigos, ao Daime – descobri que “A cabaça das idéias / Conhecida por cabeça / Quem sabe talvez mereça / Rosa, lírio ou azaléia”. Segundo uma breve pesquisa na Wikipedia, no Houaiss e no Aurélio, cabaça ou porongo (Lagenaria vulgaris) é uma “planta trepadeira, da família das Cucurbitaceae presente no norte e nordeste do Brasil”, com cujo fruto, desde os tempos dos primeiros índios brasileiros até hoje, se faz um recipiente para as mais diversas destinações; cabaça é, também, sinônimo de cuia, aquela que se usa, por exemplo, para tomar chimarrão no sul do país. O nome da banda, o manifesto, a canção e a multiplicidade de sentidos parecem culminar na seguinte interpretação: os Porongas, além de proporem a “urbanidade amazônica” muito além dos seus limites regionais, invadem o Eixo Rio-São Paulo para ensinar-lhe que há muito mais Brasis do que quer a nossa pífia arrogância, cuja imaginação fértil e contaminada de indústria cultural pinta esses outros Brasis como inóspitos e pouco urbanizados. Mais do que isso: a cabeça, representação tradicional da racionalidade, dará lugar, na obra dos Porongas, à cabaça, marca de regionalismo e universalidade nacional a um só tempo, ornada, agora, com flores. Resgatando elementos de nossa flora, exalando aromas amazônicos, sem folclorizá-los, os Porongas apresentam uma obra moderna, imersa no melhor do nosso rock, rescendendo a urbanidade; por meio do Manifesto Poronga do encarte, a banda ilumina ao público o caminho que está traçando, junto com ele: na esteira de movimentos como a Antropofagia, a Tropicália e o Manguebit, devora elementos estrangeiros e apropria-se de elementos regionais para projetar o Brasil no nosso “pequeno moderno mundo pequeno moderno”, interferindo, severamente, nele.

Senhoras e senhores, os Porongas trouxeram-me boas novas: eles viram a cara do rock brasileiro. E ele está vivo.