quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Versos subversivos cantados pra mudar

Os integrantes do Julia Car definem a si próprios, no site do conjunto, com a seguinte metáfora: “um corpo orgânico eletrônico coletivo com um trabalho caracterizado por uma atitude rock de alma pop”. Gosto da idéia de definir uma banda como “corpo orgânico eletrônico coletivo”, porque essa expressão singular remete à unidade dos integrantes – que, de fato, compõem um todo coerente – e às influências que a música eletrônica tem nas canções do Urbano, primeiro trabalho dos caras. Essas influências são equilibradas, de fato, com a atitude rock e a alma pop – numa equação ousada cujo resultado me parece apontar para os horizontes da canção brasileira.

Tome-se como bom exemplo “Chuta lata”, terceira colocada na I Semana da Canção de São Luís do Paraitinga. Berço de festas populares tradicionais do Estado de São Paulo, como o Carnaval e a Festa do Divino, além de abrigar festivais de marchinhas, de músicas juninas e de músicas sertanejas de raiz, a cidade vem se tornando um importante pólo de compositores brasileiros. O mais interessante é que, apesar de ser extremamente zelosa com a tradição popular, São Luís do Paraitinga também abre as portas a composições de matrizes mais modernas, daí a conquista do Julia Car. De autoria de Julli Pop e Jotacê, “Chuta Lata” namora, em termos entoativos, com o rap à brasileira, mas vai, no todo da composição musical e na letra, muito além dele. Aliás, nessa canção, a ponte entre tradição popular, de um lado, e gêneros musicais recentes, de outro, é flagrante: os versos do refrão são glosados nas estrofes, exatamente como ocorria com os cancionistas medievais, cujas composições são as ancestrais mais distantes dos repentes da canção popular. O verso “um ato pequeno inicia o contemporâneo” aponta para a ciência que os autores têm de associar esse cabedal do passado às batidas eletrônicas do presente.

A temática e a ambiência da letra, contudo, são eminentemente urbanas e atuais, anunciadas pela linguagem coloquial das ruas: “Chapando o crânio eu fiz a rima ali no vasco / Das ruas da Sul chutando lata até Osasco”. Não faltam aliterações (“Entre compassos e passos / Estrofes letras e traços / Passo minha vida assim / Assim minha vida passo / No contrapasso,ultrapasso / Assino embaixo o que faço”) que dialogam com as batidas eletrônicas, conferindo-lhes a unidade que faz a canção obter o efeito persuasivo apresentado nos últimos versos, em que é reiterada a postura contestatória dos autores: “Música arte e cultura independente de espaço / Não me embaraço, nem me cadencio ao normal / Mesmo quando excluso do quesito social / Pra chegar onde eu cheguei, muita lata eu chutei / Rimei, cantei, chapei, as vezes improvisei, declamei / Poesia urbana aos pontos cardeais / Em meio ao caos do holocausto eu propaguei a paz”. Independência dos grandes canais da indústria fonográfica, resistência à alienação e à exclusão social, formulação de uma “poesia urbana” e propagação da paz: estão assim condensados, em poucos versos, grandes temas da arte e da cultura de nosso tempo, observados numa perspectiva extremamente convincente, porque nos é mostrada em primeira pessoa.

A riqueza da sonoridade dos versos está presente em todas as canções – e seria enfadonho, nesta coluna, comentar todas elas. A mais longa do trabalho – porque me parece ser a mais densa – é “Olha... desomenagem a Pero Vaz”. A associação com a carta de Pero Vaz de Caminha é direta: espécie de “certidão de nascimento” do Brasil, o texto de Pero Vaz deixa transparecer, nas palavras do crítico literário Alfredo Bosi “a ideologia mercantilista batizada pelo zelo missionário de uma cristandade ainda medieval”. No trecho final, o mais famoso da carta, o escrivão da frota de Cabral – além de constatar que, à primeira vista, não encontrou por aqui metais preciosos e que é preciso, antes de tudo “salvar esta gente”, os indígenas – faz as vezes de profeta, lançando um dos maiores clichês a respeito do Brasil (que dura até hoje): o elogio à exuberância natural e à fertilidade desta terra (“querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”). Encerra-se o texto com a data e o primeiro nome que o Brasil teria: “Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500”.

É exatamente todo esse trecho famoso que é declamado, no início da canção do Julia Car, por uma criança numa entoação que, obviamente, dá ao texto um ar de conto de fadas. Daí o primeiro verso – “Era uma carta meio encantada pra se ler” – seguido de “Todas as ruas eram turvas antes do dia nascer”, talvez em alusão aos rios, cujas águas Pero Vaz insistiu em comentar. Logo a seguir, descobrimos que estavam “Tatuadas nas costas do povo, as linhas coloridas de erê” e que essas linhas “Abriram caminhos suntuosos, pra população sorrindo crescer”. Do momento da redação da carta de Pero Vaz, em que não havia negros no Brasil – nossa infância histórica – a uma referência ao erê que, no candomblé, é o espírito de criança que cada um guarda dentro de si (devo esta explicação a minha irmã, que estuda as os cultos afro-brasileiros há um bom tempo). Parece-me uma das descrições mais sensíveis do alvorecer de nosso país, exatamente porque é multicultural, como é o povo brasileiro.

Não nos esqueçamos, contudo, que a canção é uma desomenagem a Pero Vaz. É por isso que, depois de nascida e crescida, nossa gente assume forma de ser humano adulto (“Tem gente que se mata pra ter / Tem gente que mata pra conseguir”), com mais dores do que delícias. Parece que ficam saudades do universo encantado e puro das crianças e das linhas de erê. Aguça-se a necessidade de retorno a esse universo pueril e onírico nos versos “Olha! Mano que é mano parado / Olha! Mano que é mano pelado / Olha! Mano que é mano. / Cadê? Sumiu fome comeu”, já que a exclamação “Olha!” lembra o estarrecimento dos colonizadores ao pisar as terras brasileiras quando viram que os índios não escondiam as “vergonhas”. O leitor já deve ter se lembrado de que, muitas vezes, a inocência dos índios, que andavam pelados, levou os colonizadores a comparar a América com o Paraíso bíblico, aquele que só se estragou porque Adão e Eva perderam a inocência (exatamente a característica marcante das crianças). Em suma: perdeu-se a pureza primordial do erê.

Finalmente, num arranjo de guitarras muito mais pesado, em voz radiofônica, aludindo à urbanidade que vai no título do disco e na alma da banda, descobrimos que o mano sumiu porque “neste país se come crença” e que aqui “Cabeça já não pensa pesar já não se quer”. Por aqui, vigora a política do “pão e circo” – “Se tiver samba é bom, se tiver pão também / Se não tiver sorriso é o que se quer” –, que extermina qualquer resto do mundo encantado, infantil e inocente. Mas, num acalanto, como se cantasse uma canção de ninar para o ouvinte, “Olha... desomenagem a Pero Vaz” retorna à voz da criança declamando a carta, enfatizando o local e a data, “Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500”. Trata-se da tentativa de recuperação, de resgate daquele universo puro, que conforta o ouvinte e remete, mais uma vez, à paz.

“Acalantar” é o título de outra canção do disco, mas poderia ser a síntese de Urbano, do Julia Car. Os integrantes do conjunto afirmam que pretendem fazer “arte para mover e grudar: idéias, conceitos e sensações”. Sem abandonar as tradições brasileiras – a literatura popular, a Carta de Pero Vaz de Caminha, o candomblé –, mas experimentando livremente o universo da música eletrônica, no corpo, do rock, na atitude combativa, e do pop, na alma, o Julia Car chega, como afirma na canção “Gandaia”, cantando versos subversivos que fez para mudar (o Brasil e o mundo). E já está mudando.

As boas-vindas a Sidney Filho e as boas-novas dos Los Porongas

Acabei de ler o texto do novo colunista do Showlivre, Sidney Filho, e fiquei bastante empolgado. Depois da iniciativa de AD Luna, que nos apresentou a proposta do Showlivre Nordeste na coluna de 08 de agosto de 2007, agora ganhamos um autor cuja proposta é divulgar “o que está acontecendo no cinema, na música e nas artes de um modo geral da região Norte”. Iniciativa louvável, porque – ainda bem! – as manifestações culturais do Brasil transcendem, e muito, as das regiões Sudeste e Sul. Pois bem: a leitura atenta da primeira coluna de Sidney lembra que a Rolling Stone deste mês publicou a lista dos melhores discos nacionais de 2007, incluindo entre eles o álbum de uma banda acreana chamada Los Porongas. A revista deposita nessa banda as perspectivas de futuro do rock nacional. Boas-vindas ao novo colunista por chamar a atenção dos leitores para o Los Porongas. Explico o porquê.

Logo que comecei a escrever esta coluna, alguns leitores fiéis, em contato por email, questionaram-me a desatualização, argumentando que eu comentava, na maioria de meus artigos, canções de bandas dos anos 80: Legião Urbana, Titãs, Inocentes, Camisa de Vênus. Lembrei, em resposta, que, embora já com vinte anos ou mais de estrada, todas essas bandas, por um motivo ou por outro, ainda se fazem presentes, afinal suas canções ainda são atuais – pelo menos foi isso que tentei demonstrar nas colunas. Lembrei, ainda, que muitas delas continuam criando obras de grande qualidade. Mas a crítica dos leitores me parecia, de modo geral, procedente. Já contei aqui que fiquei, com o passar do tempo, preconceituoso e ranzinza, sobretudo no que diz respeito a trabalhos de bandas mais recentes. Como dei alguma razão aos leitores, fui atrás de Ludovic e Pitty, cujos trabalhos desconhecia, e me encantei com eles.

Aprendendo a pesquisar novidades no Myspace, deparei-me com os tais Los Porongas, que entraram definitivamente para minha galeria de prediletos. Graças ao site oficial dos caras, descobri a maravilha dos downloads na internet (pasmem, leitores, nunca baixei ilegalmente uma música sequer) e aprendi que “O sonho americano do rock brasileiro, impulsionado pelo boom mercadológico da década de oitenta, que se sustentou até o final dos anos 90, acabou”. A disponibilização de todo o conteúdo do CD não me impediu de comprá-lo; surpreendeu-me ainda mais o posicionamento da banda a respeito do mercado atual da música e a consciência a respeito do multiculturalismo brasileiro e dos movimentos de música independente. Comentando iniciativas como o Circuito Fora do Eixo e a Associação Brasileira de Festivais Independentes, o vocalista Diogo Soares afirma, no site, que “Com esse aquecimento cultural, as cenas locais produzem uma espécie de consciência coletiva de que é possível interferir no mundo, por mais distante que se esteja dos grandes centros culturais”. Em poucas palavras: os Los Porongas não só fazem rock brasileiro de primeira, como também compreendem com clareza o papel que cumprem na nova geração, proclamando a independência do conteúdo de sua obra por meio da veiculação via internet, fugindo aos moldes da indústria fonográfica.

Aos ouvidos de um habitante bitolado do e no Eixo Rio-São Paulo, a frase “estou ouvindo uma banda acreana de rock” pode soar estranha. Dependendo do interlocutor, pode até aparecer uma ponta de preconceito do tipo “e tem rock no Acre?”. Respondo com “Nada além”, terceira faixa do trabalho dos caras. Pode-se entender essa canção como uma reflexão sobre o mundo moderno do trabalho. “Uma palavra quente rente à boca / Alguma roupa rota ou assinada / Nada além de esconderijo / Tudo bem” são os primeiros versos, que alertam a respeito de quanto um emprego qualquer pode servir de muleta para uma vida sem sal: a vontade de dizer algo e não fazê-lo, o eterno baixar de cabeça às etiquetas e à idéia de que somos respeitáveis porque temos ocupação (ainda que ela nos faça mal) e o “tudo bem” diário que dizemos a tudo que nos humilha. “Anseios temperados com receios / Paranóias e outras dúvidas” são boa descrição da vida cotidiana do trabalho. E, na explosão da canção, uma seqüência de infinitivos verbais – grosseiramente, os “nomes” dos verbos, que, na língua portuguesa, são sempre terminados em “ar”, “er” e “ir”, além do verbo “pôr” e seus derivados –, formas que não indicam tempo nem modo e que, em “Nada além”, representam o “infinitivo perpétuo de vinte e quatro lentas horas”: “Ter que acordar/ Sorrir / Cumprir / Cumprimentar / Admitir / Fingir / Dançar, dançar...”. Não sei se o leitor percebeu, mas estamos diante de descrição sensível e desesperada da sensação de que as obrigações diárias, que muitas vezes nada têm a ver com o que de fato sentimos, acabam por tornar nosso cotidiano uma mera repetição de normas de boa conduta. É o “Nosso pequeno moderno mundo pequeno moderno / Nada doce, nada eterno / Infinidade de termos / Para sermos iguais / Nada além do que satisfaz”. A riqueza poética desse trecho está na simetria dos adjetivos “pequeno” e “moderno”, referindo-se ao substantivo “mundo” – que não é doce nem eterno, ao contrário de nosso dia-a-dia massacrante – e à multiplicidade de significação da palavra “termos”, que pode indicar as infinitas palavras que existem para designar o cotidiano imutável, ou o verbo “ter”, na primeira pessoa do plural, ligado a “nada além do que satisfaz”, interpretação que indica que tudo que possuímos nos aliena e nos oferece uma satisfação passageira. Em resumo: trata-se de uma canção a respeito das contradições do nosso pequeno mundo moderno, revelando que uma banda de rock acreana talvez esteja mais ciente do que ocorre no Brasil e no mundo do que muitos habitantes do Eixo Rio-São Paulo, enclausurados nos seus mundinhos intra-muros dos condomínios fechados.

Acrescente a essa informação, leitor, o seguinte trecho de texto do encarte do CD, espécie de Manifesto Poronga, em que se divulga a proposta da banda: “Contradição primeira. Urbanidade amazônica. Seiva que escorre nas veias. Ceia do cosmopolitismo. Correr pelos rios assim como se corre nas ruas”. Chamei o texto do encarte de “manifesto” porque o estilo lembrou-me muito o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, com frases sem verbo, incisivas, diretas. Mais do que isso: o mais radical de nossos modernistas propunha, na década de 20, que os artistas brasileiros devorassem criticamente toda a cultura que vinha de fora, de modo a sintetizá-la em manifestações culturais que, guardando características nacionais, projetassem universalmente o Brasil. De certa forma, é exatamente o que propõem os Porongas na “urbanidade amazônica” e na corrida pelos rios assemelhada à corrida nas ruas. “Cultura pop?ular. Fora dos eixos e por dentro do sim”, no mesmo manifesto, é trecho que renova a proposta de combinação do popular e do pop, fora do Eixo Rio-São Paulo e para além das normas, fazendo rock brasileiro utilizando-se de referências locais. Aliás, a respeito delas, agrada-me bastante a declaração de Caetano Veloso, feita no período da Tropicália, movimento também influenciado pela Antropofagia oswaldiana, citada por Augusto de Campos, no artigo “Viva a Bahia-ia-ia!”: “Nego-me a folclorizar meu subdesenvolvimento para compensar as dificuldades técnicas”. Certamente, os Porongas não padecem das dificuldades técnicas de que fala Caetano, afinal utilizam-se de novas tecnologias para divulgar sua obra e interferir no mundo, mas preservam a convicção de negar-se a “folclorizar”, isto é, exagerar o elemento regional de sua obra, a Amazônia, afinal as letras não carregam nos lugares-comuns a respeito da floresta, com animais exóticos e tribos indígenas desconhecidas. O que vemos ali, de fato, é a urbanidade amazônica, sem que se carregue nas tintas do elogio ao pitoresco e ao bizarro, que tanto atrapalhou nossa literatura e nossa canção popular.

Lembremos, finalmente, que “porongas” eram suportes para uma lamparina de querosene, colocados na cabeça dos seringueiros para iluminar-lhes o caminho durante as madrugadas nos seringais, indício que a banda parece ter ciência de que serve de guia para o público, principalmente o do Eixo Rio-São Paulo, revelando-lhe um Brasil que ele desconhece. O projeto vai, contudo, além: em “Ao Cruzeiro” – canção que parece aludir, segundo o que li em alguns artigos, ao Daime – descobri que “A cabaça das idéias / Conhecida por cabeça / Quem sabe talvez mereça / Rosa, lírio ou azaléia”. Segundo uma breve pesquisa na Wikipedia, no Houaiss e no Aurélio, cabaça ou porongo (Lagenaria vulgaris) é uma “planta trepadeira, da família das Cucurbitaceae presente no norte e nordeste do Brasil”, com cujo fruto, desde os tempos dos primeiros índios brasileiros até hoje, se faz um recipiente para as mais diversas destinações; cabaça é, também, sinônimo de cuia, aquela que se usa, por exemplo, para tomar chimarrão no sul do país. O nome da banda, o manifesto, a canção e a multiplicidade de sentidos parecem culminar na seguinte interpretação: os Porongas, além de proporem a “urbanidade amazônica” muito além dos seus limites regionais, invadem o Eixo Rio-São Paulo para ensinar-lhe que há muito mais Brasis do que quer a nossa pífia arrogância, cuja imaginação fértil e contaminada de indústria cultural pinta esses outros Brasis como inóspitos e pouco urbanizados. Mais do que isso: a cabeça, representação tradicional da racionalidade, dará lugar, na obra dos Porongas, à cabaça, marca de regionalismo e universalidade nacional a um só tempo, ornada, agora, com flores. Resgatando elementos de nossa flora, exalando aromas amazônicos, sem folclorizá-los, os Porongas apresentam uma obra moderna, imersa no melhor do nosso rock, rescendendo a urbanidade; por meio do Manifesto Poronga do encarte, a banda ilumina ao público o caminho que está traçando, junto com ele: na esteira de movimentos como a Antropofagia, a Tropicália e o Manguebit, devora elementos estrangeiros e apropria-se de elementos regionais para projetar o Brasil no nosso “pequeno moderno mundo pequeno moderno”, interferindo, severamente, nele.

Senhoras e senhores, os Porongas trouxeram-me boas novas: eles viram a cara do rock brasileiro. E ele está vivo.

Um pouco de desesperança no coração

Sinceramente, não ligo muito para a época de Natal e Ano-Novo. Não sou religioso, perdi faz tempo a crença em instituições religiosas quaisquer e irritam-me bastante obrigações como comprar presentes para participar de amigos-secretos. Mas sempre vejo nas comemorações do final de ano uma chance de reunir membros da família, amigos ou colegas de trabalho com os quais não tenho a chance conversar longamente. Interessam-me as pessoas, pouco me importa a data. Não posso dizer que não sou tomado pelo otimismo, pelos projetos futuros e pelo sonho de que a mera troca de algarismos possa trazer algo de novo à vida. Na verdade, o que me revolta bastante é a onda de esperança que se pode respirar na cidade: esperar passivamente me cheira a falta de atitude, a conformismo, que nada têm a ver com rock n’ roll.

Uma obra literária que partilha desse otimismo todo é Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Talvez os leitores se lembrem brevemente do enredo: Severino, retirante que parte rumo ao Recife, deixa para trás a violência e a crueldade da seca; ao longo de seu trajeto rumo à capital, ele se depara diversas vezes com a morte, que é, até, meio de vida em algumas cidades. Ao chegar ao Recife, à beira do suicídio, Severino maravilha-se com a “explosão da vida”: em um dos mocambos que existem entre o cais e a água do Rio Capibaribe, ele é contagiado pela alegria de um pai cujo filho acabou de nascer. Daí para frente, só dá vida, numa alusão direta ao nascimento de Cristo. O texto termina numa enfiada de otimismo que, para mim, nunca colou, apesar de todo o valor que tem esse texto literário.

A essa “explosão da vida” em pleno bairro miserável de Recife, respondem Chico Science e Nação Zumbi, com brevidade: “Num dia de sol, Recife acordou / Com a mesma fedentina do dia anterior”, em “A cidade”, canção do CD Da lama ao caos, cuja música título ensina que, com o bucho mais cheio, é possível pensar que organizando, podemos desorganizar; que desorganizando, podemos organizar. Para mim, está enunciada aí a função de qualquer manifestação artística inconformada, especialmente do rock nacional: desconstruir o que está posto, como se fosse uma verdade intocável, para que se possa organizar outra realidade, diversa da anterior – de preferência, com as pessoas de bucho mais cheio.

A história do nosso rock como um todo, aliás, pode ser chamada de muita coisa, menos de esperançosa, de passiva ou de respeitadora da “organização” (salvo, é claro, as manifestações estritamente inseridas na lógica de mercado; nessas, não pulsa vida pensante de quem se revolta: pulsa uma máquina registradora). E me parece que deve ser assim mesmo: o êxtase com a árvore de natal do Ibirapuera, com as luzinhas nas casas e nos prédios dos bairros nobres da cidade, com a aceleração das compras nas semanas de dezembro, tudo isso me cheira a escamoteação de uma realidade bem menos otimista do que gostaríamos. O primeiro dos primeiros exemplos para confirmar essa hipótese é sempre o Papai Noel dos Garotos Podres, aquele que enjeita os miseráveis, cospe nos pobres e presenteia os ricos. A banda do ABC, nessa canção, inverte a lógica da esperança: é preciso seqüestrar e matar o bom velhinho, punir esse “porco capitalista” por esquecer-se dos pobres. Agrada-me esse assassinato simbólico do ícone natalino: já estava na hora de alguém escancarar o lado do Natal que ninguém quer ver, que não aparece na “telinha da Globo”, porque foge ao padrão de qualidade que rende Ibope.

(O leitor deve estar achando que estou de mal com a vida, ou que minha família não me dá presentes no dia 25 de dezembro. Não é nada disso. No exato momento em que escrevo estas linhas, as notícias mais lidas no Caderno Ilustrada da Folha Online são as seguintes: “Surpresas e emoção marcam show de despedida de Sandy e Junior”, “Irmã de Britney Spears de 16 anos está grávida”, “Saiba o que vai acontecer nas novelas desta quarta”, “Campanha da Louis Vuitton traz Naomi Campbell e Claudia Schiffer”, “Canal Sony exibe hoje final do reality show ‘Brazil's Next Top Model’”. Precisamos ou não de uma injeção de desesperança em nosso coração, nesta época do ano?).

Eu me lembro muito bem do que aconteceu com João de Santo Cristo quando ele chegou a Brasília, fascinado com as luzes de Natal: trabalhou por miséria, percebeu que tudo o que ministro dizia no rádio era mentira, meteu-se num negócio escuso com Pablo, foi corneado pela namorada com quem ia se casar e acabou morto com um tiro pelas costas, num duelo contra Jeremias – um falso profeta que dizia que era crente, mas que não sabia rezar. Isso porque o nome do cara era João de Santo Cristo e porque o natal é suposta data de “renovação”. É evidente que, na canção de Renato Russo, também há uma idéia de subversão do imaginário natalino -esperançoso: acho que das muitas versões do herói do natal, a da Legião Urbana é a única em que o cara que leva Cristo no nome tem ódio no coração. Não é à toa que ele é declarado santo pelo povo: sua capacidade de revoltar-se contra as instituições que o oprimiam vinham desde a mais tenra idade – ele adquiriu ódio no coração quando seu pai foi morto por soldados; na escola, até o professor com ele aprendeu; ele ia pra igreja só pra roubar o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar. Também não é por acaso que a alta burguesia da cidade não acreditou na história que viu na tevê: não havia na trajetória do Santo Cristo os traços de idealização da pobreza que abundam nas novelas.

Um aluno meu, doutor em filosofia, me disse na semana passada que o trabalho de André Comte-Sponville, filósofo francês de que sou fã, não é muito sério. Pode até ser verdade, mas indico o livro A felicidade, desesperadamente a todos os leitores (talvez seja um presente de Natal mais interessante do que o velho vale-cd ou a peça previsível de roupa). Nessa obra, desconstrói-se o sentido da palavra “esperança”, tão associada a esta época do ano. “Esperar é desejar sem saber”, diz o francês, e concordo: esperamos demais – um país melhor, um amor avassalador, um emprego digno que pague bem, etc. – e agimos pouco. O trecho final do texto é a mensagem que deixo aos leitores neste final de ano:

“Trata-se, na ordem teórica, de crer um pouco menos e de conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e de amar um pouco mais”.

O rock brasileiro ocupa um capítulo especial na história de nossa canção: o capítulo dos inconformados que, em face de algumas datas, ocasiões e manifestações, sempre apontam um caminho alternativo, em que não prevalece a esperança passiva, mas a ação por meio da música.

Eu em desconcerto

Quando eu estava no colegial, a coisa que me dava mais raiva eram os caras mais velhos, de uns trinta ou quarenta anos, que sempre me diziam que o que eu ouvia não era novidade e que faltava à minha formação musical esta ou aquela banda. Admito: todas essas dicas me ensinaram muito. Por meio delas, aprendi alguns clichês que, embora desgastados, ainda me parecem verdadeiros: podemos espernear, gritar, chorar, mas, de fato, os Beatles fizeram quase tudo antes de todas as outras bandas; a voz do Bob Dylan é mesmo estranha, mas não haveria o rock que conhecemos hoje sem as canções dele; a Jovem Guarda é mesmo a matriz do rock no Brasil. Descobrir tudo isso era, às vezes, doloroso – eu queria, egoísta, que as bandas que eu ouvia fossem as melhores do mundo, mas nem sempre isso era verdade. O que não lhes tirava o mérito, nem fazia que fossem insignificantes na história do rock.

Descobri depois que, entre as muitas maravilhas de ser professor, a maior delas é oferecer aos alunos esse êxtase e essa esquisitice da descoberta: os olhos de alguns brilham quando percebem que os temas brasileiros que aparecem nas canções de hoje já eram explorados pelos escritores do século XIX, talvez até antes.

Eu também envelheci. Os alunos que primeiramente se aproximavam de mim quando eu dava aula no cursinho eram os roqueiros – o meu cabelão à Sepultura já dizia tudo na primeira aula. Há uns três anos, um garoto veio me mostrar canções de uma menina que começava a fazer sucesso – Pitty. Ouvi por alguns segundos uma delas e declarei, arrogante, que o garoto precisava descobrir o rock brasileiro dos anos oitenta, exatamente como faziam comigo os mais velhos. Senti-me superior: eu já conhecia melhor a história do rock nacional e dava uma de especialista. O aluno me ouviu atentamente e saiu um pouco atordoado: ele esperava minha opinião sobre uma roqueira atual, não uma aula de história do rock brasileiro.
O tempo passou, deixei de dar aulas no cursinho, cortei os cabelos. No último final de semana, navegando pelo Showlivre de madrugada com minha esposa, topamos com uma entrevista com a mesma Pitty, a respeito do lançamento do novo trabalho dela. Os flashes do show nos surpreenderam de tal modo que ficamos a madrugada toda assistindo à entrevista várias vezes, só pra ouvir as canções, como dois adolescentes. Impressionaram-nos o carisma da cantora e o peso do som. Pois bem, fui atrás do {Des}concerto ao vivo e voltei atrás na minha arrogância, porque voltei atrás no tempo: há bons anos eu não me empolgava tanto.

Pra começar, Pitty bebe em tantas tradições e as sintetiza de uma maneira tal que fiquei tonto: ela é mulher-menina roqueira brasileira, marcando presença numa galeria em que figuram nomes do quilate de Rita Lee e Cássia Eller; é também uma baiana como Raul Seixas e Marcelo Nova – os três transcendem, por meio do rock, o mero êxtase alienante do carnaval; apesar das diferenças de gênero, a interpretação é magnética como a de Elis Regina; as letras que mais chamam a atenção versam sobre a alienação, os valores e a velocidade do nosso mundo, com questionamentos que guardam raízes no melhor rock engajado.

"Anacrônico", por exemplo, parece uma versão moderna da "Velha roupa colorida" de Belchior, imortalizada por Elis Regina. O tema não é novo e lembra até um soneto de Camões, o famoso “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”: as transformações do mundo levam às mudanças de valores. Até aí, nenhuma novidade, um português do século XVI já havia percebido isso. Acontece que, na canção de Pitty, saquei que “surgem novos valores / Vindos de outras vontades / Alguns caindo por terra / pra outros poderem crescer / Caem um, dois, três, caem quatro / A Terra girando não se pode parar”, ou seja, percebi que não há um processo evolutivo, mas apenas uma substituição eterna, em que os tais valores são descartáveis como um produto qualquer. As ambições, entretanto, são “mais fortes, somadas com as anteriores”, num processo de acumulação. Note, leitor: os valores caem – verbo que, em nosso cotidiano, também está relacionado à derrota, à violência – e são substituídos enquanto as ambições ganham corpo. Assusta a lucidez dessa constatação. Não estamos no terreno fácil das letras alegres.

"Admirável chip novo" é alusão direta à obra de Aldous Huxley, Admirável mundo novo. E essa citação, pela facilidade evidente, oculta uma outra: uma canção de Gilberto Gil de nome "Futurível" em que o eu que canta – um “cientista detentor da tecnologia”, nas palavras do próprio autor – diz ao homem que não se preocupe com o processo pelo qual está passando: os olhos serão de cobre, os braços de estanho; a humanidade mutante será mais feliz porque “Na nova mutação / a felicidade é feita de metal” e o sistema do cientista manterá a consciência do ser. A versão nada animadora de Pitty, que aprofunda a ironia do ministro: “Pane no sistema, alguém me desconfigurou / Aonde estão meus olhos de robô? / Eu não sabia, eu não tinha percebido / Eu sempre achei que era vivo”. E depois, mais cruel, depois da reinstalação do sistema (palavra cujo duplo sentido enriquece a interpretação): “Pense, fale, compre, beba / Leia, vote, não se esqueça / Use, seja, ouça, diga / Tenha, more, gaste, viva”. Gostei mais ainda: o otimismo fácil a respeito da evolução tecnológica omite ou oculta o processo alienante que ela traz consigo. Em "Déjà Vu", Pitty já avisava que nenhuma doutrina a convence – sensação da qual tenho partilhado cada vez mais.

Em "Semana que vem", fiquei sabendo que “Nós não temos todo o tempo do mundo” – e tive de concordar com essa subversão de um dos mais importantes versos da minha geração. Não há aí mero desfrute irresponsável da vida, porque, em "Memórias", descobri que só dando o melhor de si é que se consegue fazer que as coisas ao redor se movam. Acho que {Des}concerto ao vivo me sensibilizou tanto porque ali pulsa uma vontade incontrolável de mudar o mundo e porque a maioria de suas canções diz respeito ao tempo que eu sei que já não tenho: as canções da Pitty transportaram-me, na passagem de um verso, para o presente.

A estética do palavrão: notas sobre nosso desconhecimento

Nunca vou me esquecer de um momento marcante da minha pré-adolescência: o dia em que ganhei uma suspensão, no colégio de freiras, por levar “revistas pornográficas” para a classe. Na quinta série, eu reinava absoluto com uma edição da Chiclete com Banana (revista pornográfica?) e a história da Mara Tara, que matava os incautos de tanto chupá-los, em diálogos forrados de palavrões. Enquanto eu mostrava minha revista aos coleguinhas, no intervalo entre uma aula e outra, fui surpreendido pela inspetora, Dona Dirce, que bradava “Mas que baixaria é essa? Uma revista pornográfica na escola! E cheia de palavras de baixo calão! Vai pra diretoria já!”. A suspensão, além de umas palmadas e um bom castigo, rendeu-me a proibição de leitura daqueles “absurdos”.

Desde então, passei a me perguntar: qual é o problema de falar palavrão? Aquelas palavras me soavam muito mais expressivas do que quaisquer outras; não há raiva que possa ser posta pra fora com eufemismos bundões (melhor escrever “cuzões”) do gênero “Maldição!”, “Mas que diabos está acontecendo?” ou “Raios que me partam!”. O que eu queria mesmo ver e ouvir eram as piranhices da Sílvia, a perversão da Mara Tara e as andanças de cama em cama da Rê Bordosa – sem crises de consciência minhas ou delas. Parece contraditório, mas também sempre me encantei com poesia, inclusive a dos românticos, cheias de peitinhos pulsantes, moças seminuas sonolentas e nada de penetração ou palavrão. Espero que os leitores não me entendam mal, pois não estou defendendo pornografia gratuita (aliás, toda obra do Angeli passa longe disso) para pré-adolescentes, muito menos o uso do palavrão em situações em que ele não é adequado; tenho a impressão, contudo, de que, relegar as “palavras de baixo calão” à sombra da marginalidade é, muitas vezes, fechar os olhos – por preconceito ou repressão mesmo – a alguns conteúdos concretos da realidade em que vivemos.

Como já contei aqui nesta coluna, um dia, ouvi o Viva do Camisa de Vênus, e a minha vida mudou. A literatura “oficial”, para mim, ficou em segundo plano, perdeu espaço para Joana D’Arc, que ficava excitada quando pegava na lança. Não era só Marcelo Nova, contudo, que saciava minha sede de palavrão – que prefiro entender como minha sede de língua portuguesa real, cotidiana – mas muitas outras bandas que, umas mais outras menos, traziam para a canção brasileira uma linguagem com que eu me identificava. Basta lembrar, só a título de exemplo, do sonoro “Vão se fuder!” à oncinha pintada, à zebrinha listrada e ao coelhinho peludo de "Bichos Escrotos" dos Titãs; ou do “general de dez estrelas, que fica atrás da mesa com o cu na mão”, em "Faroeste Caboclo", da Legião Urbana. Pode ser que meu olhar esteja embaçado pela nostalgia da pré-adolescência, mas tenho a nítida impressão de que os roqueiros brasileiros da década de oitenta renovavam o mercado fonográfico nacional superando os pretensos “monstros sagrados da MPB” não só nas vendas de disco, mas também na revitalização do vocabulário. A censura dava seus últimos suspiros, e não há dúvidas de que devemos à turma da MPB as primeiras espetadas que ela levou; o golpe de misericórdia, contudo, coube aos roqueiros. No Estúdio Showlivre do Camisa de Vênus, inclusive, Marcelo Nova declarou ter plena ciência do papel que tinha, com todos os palavrões do Viva: oxigenar a linguagem da canção popular brasileira homenageando um autor maldito de nosso teatro, Plínio Marcos, cujas peças estão cheias de palavrões.
Quando AD Luna, na coluna de 03 de outubro de 2007, “O rock e a terceira idade”, ria da molecada que se indigna com a história que o rock já construiu, lembrei-me de que uma das demonstrações de maturidade – envelhecimento jamais – da literatura brasileira é o fato de ela construir uma tradição com base em seus próprios escritores do passado, dispensando, em certa medida, modelos de países estrangeiros. Não será diferente com o rock nacional: embora boa parte da crítica insista em discriminar, de um lado, “música popular” e, de outro, “rock brasileiro”, acredito que nosso rock é parte da tradição de música popular brasileira – porque, por aqui, ele já ganhou matizes bastante particulares e, sobretudo, porque já contribuiu sensivelmente em termos formais, com aquela renovação do vocabulário. É música jovem, sem dúvida – eis um traço imprescindível do rock; não será jamais música só para jovens. O “jovenzinho roquista” de que falava AD Luna não é jovem: já envelheceu de preconceito e imobilidade. Rock – sobretudo no Brasil – é reinvenção por meio de permeabilidade a outros gêneros.

Além disso, lembrei-me também do texto de Clemente a respeito do funk carioca, de 27 de setembro: não serão os palavrões uma das primeiras barreiras à entrada dos mais conservadores nesse universo ainda pouco entendido e muito atacado da canção brasileira? Uma boa hipótese é a de que o suposto “decoro” das canções de massa está diretamente associado à sua higienização: elas não têm palavrão, não tem mundo real, o que me leva a crer que, ali, no funk – que conheço pouco, confesso – pulsa um mundo mais concreto que, por muitos motivos, não queremos ver. Talvez seja um mundo parecido com aquele que Marcelo Nova viu nas peças de Plínio Marcos. Em Barrela, por exemplo, a ação se passa numa cadeia, em que um jovem de classe média alta, preso por uma noite aprontando alguma, acaba sendo estuprado pelos companheiros de cela. O texto surpreende pela linguagem agressiva, talvez inédita na dramaturgia brasileira – e expõe uma realidade impensável nos programas de horário nobre e nos bancos escolares.

Não faltam à nossa literatura, aliás, escritores consagrados, “oficiais”, que usaram e abusaram de palavrões: confira, por exemplo, alguns poemas satíricos de Gregório de Matos Guerra, o Amor Natural, de Carlos Drummond de Andrade (olhe os títulos dos poemas: “No mármore de tua bunda”, “A carne é triste depois da felação” ou ainda “Ó tu, sublime puta encanecida”) e o soneto “A cópula”, de Manuel Bandeira, citado por Zuenir Ventura no livro Minhas histórias dos outros.

Apesar de todo esse histórico no universo da literatura e do teatro, custou à canção brasileira assimilar o palavrão. Certamente, muita gente desconhece esses textos, como desconhece “Ângela”, de Raul Seixas, primor de poema erótico; certamente, a gente não sabe que o verso “I love to turn you on”, da canção "A day in life", dos Beatles, era uma ousadia para a época. Da mesma forma, na primeira vez em que ouvi My way, aos dez anos, no disco Viva, achei que aquela canção infestada de palavrões era de autoria de Marcelo Nova. O que nos falta – e falta, sobretudo, aos mais jovens – é respeito a nossa língua verdadeira e cotidiana, cheia de palavrões e sujeiras de toda ordem, que não a emporcalham, mas a enriquecem, da mesma forma que fizeram com a canção brasileira, renovando-a quando ela carecia de vitalidade. O que nos falta é investigar a história de nossa canção e de nossa literatura e perceber que, nelas, o que se fala, muitas vezes, não é a nossa língua, mas uma outra, oficial, pretensamente culta, toda decorosa, melada e, portanto, bastante falseada. Não adianta fugir dessa língua real nem tentar calá-la. Fui suspenso da escola por ler Chiclete com Banana. Nas férias, meu pai alugou um apartamento em Peruíbe para passarmos o verão. Na praia, minha irmã arrumou um namoradinho que ouvia bandas que eu ainda não conhecia e que ouviria pelo resto da vida: Plebe Rude e Ira! Fuçando nos armários do apartamento, descobri uma coleção de jornais velhos, que li de cabo a rabo, ao longo daquele verão: era o Pasquim, um ancestral do Chiclete com Banana.

Ludovic: muitas vozes e um idioma morto

Há uns poucos meses, o Clemente me deu assunto de bandeja para esta coluna. No Estúdio Showlivre do Ludovic, durante a entrevista, ele afirmou que as letras da banda “funcionavam sozinhas, como se fossem poemas”. Concordo em parte: não há dúvida de que aquelas letras têm uma puta qualidade. Mas o próprio poeta e vocalista Jair, no mesmo programa, disse ao Clemente que discordava, isto é, que havia, sim, firme propósito de que aqueles textos integrassem canções e que havia no trabalho da banda larga preocupação com a parte musical. Concordo totalmente.

Os ouvintes de Idioma Morto, segundo CD do Ludovic, hão de se impressionar com dois elementos fundamentais do disco: o primeiro deles é um fenômeno que Bakhtin, estudioso russo da literatura, chama de polifonia; o outro é a concepção de Idioma Morto como obra que compõe um todo coerente – daí eu chamá-lo de disco, palavra fora de moda, mas que me parece adequada para fazer referência a trabalhos cancionais de forte coerência interna. A indústria fonográfica tem feito de tudo para acabar com esse “produto”, mas é evidente que ele está vivo e saudável no universo das bandas independentes.

Talvez os especialistas em Bakhtin me coloquem na fogueira, mas creio ser possível fazer a seguinte associação: segundo esse estudioso, nos romances de Dostoievsky, diferentes personagens se manifestam – cada uma com as respectivas linguagens, repertórios e pontos de vista – sob a organização do autor, que, literalmente, dá voz a cada uma delas; ora, também é verdade que isso ocorre em Idioma Morto, por exemplo – mas não só – na canção “Atrofiando/Recém-convertido/Ex-futuro diplomata”. Já o título (ou serão três títulos?) é sugestivo: cada uma das expressões contém um ponto de vista a respeito do eu que canta. Um bom chute é que “Atrofiando” represente a visão que alguém de fora, um estranho, teria sobre aquele eu; “Recém-convertido” é expressão que se aproxima mais da opinião do próprio eu da canção, que conta os estados de sofrimento que experimentou depois que se rendeu à lógica do mercado de trabalho. Finalmente, “Ex-futuro diplomata” parece aproximar-se da perspectiva da mãe do eu, que se orgulhava dele e decepcionou-se.

A força da canção está exatamente em combinar essas três vozes, apresentando ao ouvinte uma espécie de holograma a respeito da situação em que o eu que canta está envolvido: na perspectiva dele, a conversão ao mercado de trabalho é recente e dolorida, por isso ele está “distribuindo currículos em branco”, mas, sobretudo, “clamando por piedade”, verso gritado em agudo, que marca, literalmente, a consciência do eu que se vê vendido ao sistema. A segunda – bastante cruel – é a da mãe, marcada noutro verso também urrado em agudo – “Você nunca me enganou – saia por onde entrou” – em que se manifesta a decepção com o filho, que abandonou o prestígio e o status de uma eventual carreira diplomática. A terceira voz, a de um observador externo, se manifesta principalmente no verso “(ele é sempre quieto assim?)”, marcando o olhar de alguém que desconhece o “rancor” em que está “afogado” o eu que canta. A última estrofe – “Lamento informar, / Mas seu dublê de messias / seu tão prestativo cão guia / perdeu o ar permissivo e acolhedor” – anuncia o rompimento com a mãe, que, por sua vez, lhe responde, mais uma vez: “saia por onde entrou”. Trata-se de letra complexa – daí a impressão de Clemente – em que observamos um fragmento de narrativa sob três ângulos diferentes: o do eu aflito, o da mãe frustrada e o de um estranho, que não entende o atrito entre os dois primeiros.

Mas o mérito não pára por aí: ouvintes mais atentos perceberão que a última canção do disco amarra-se à primeira. Em “Trégua”, ressurge a figura da mãe: o feito heróico do eu que canta é render-se aos embalos maternais dessa “jovem viúva em prantos”, como que encerrando os conflitos relatados em “Atrofiando/Recém-convertido/Ex-futuro diplomata”. Diante de um júri, o eu que canta é insultado por uma outra voz, que diz ser ele “um orador limitado a um idioma morto”. É mais uma vez o observador externo – agora na forma de júri – que se manifesta: ele não pode entender a linguagem do eu que canta, por isso o idioma lhe parece morto.

Ciente de que, aos olhares de estranhos e da própria mãe, os dilemas e as crises que experimenta parecerão incompreensíveis, o eu que canta e escreve deu ao álbum o título Idioma Morto, como se quisesse, mais uma vez, gritar-nos ao ouvido a solidão e o rancor que sente. Esses estados perpassam todas as canções, conferindo coerência ao disco. As diferentes vozes que ali se manifestam parecem asseverar mais uma aflição do eu: ele conhece a perspectiva dos que o observam e as expectativas de seus parentes – ouça “Desova”, em que o pai e o eu são “irmãos siameses em vias de separação” –, mas o inverso não é verdadeiro. Daí a sensação de incompreensão expressa no título do trabalho.

Em palavras simples: os versos que nos mostram as diferentes vozes tendem ao agudo, efeito que só é possível na interpretação gravada pelo autor da canção. Se tivéssemos apenas os poemas, até poderíamos compreender a polifonia, mas perderíamos a força do recurso vocal recorrente no disco, que só reforça a sensação de isolamento expressa no conteúdo das letras e no título Idioma Morto.

Pequena poética dos Inocentes e o fantasma de Mário de Andrade

Assistir à gravação do DVD dos Inocentes, no Centro Cultural São Paulo, foi experiência única. Poucos espaços são mais adequados do que aquele para uma apresentação da maior banda punk do país. Destinado à promoção da diversidade cultural, o Centro Vergueiro abriga as mais diferentes manifestações artísticas brasileiras, deixando de lado a preferência que se costuma dar à cultura dominante, elitizada. Lá se pode encontrar, por exemplo, uma exposição permanente a respeito das pesquisas de Mário de Andrade, que investigou a fundo nossa canção popular. Gostei de ouvir “Pânico em SP” ao lado do fantasma desse escritor, que vagava por ali, entre o público, prestando atenção à letra dessa canção, estranhando sua crueza e lamentando a violência relatada na letra. Mário de Andrade adorava a cidade de São Paulo, e seu fantasma deve ter se assustado com a visão, a um só tempo, apocalíptica e profética de Clemente.

Aliás, o letrista dos Inocentes, de certo modo, se insere na tradição dos poetas e músicos que homenageiam a capital paulista. Só que, na obra da banda, essa homenagem ocorre às avessas: São Paulo é cidade cruel cujas ruas estão tomadas por bombeiros, exército e policiais, todos prontos para atirar na população amedrontada – sem que ninguém saiba o que está acontecendo, todos vítimas da alienação engrendrada pelos meios de comunicação, como veremos adiante. Fica a impressão, em primeiro lugar, de que a cidade parece ter vida própria, isto é, de que a multidão acaba por compor um ser único, irracional, assustador. Uma análise mais detida da canção, entretanto, pode levar a outras possibilidades.

Perceba, por exemplo, que o desespero em que se vê a população foi planejado pelos meios de comunicação: “as rádios avisaram que era pra correr”; no jornal, no rádio e na TV, “estava estampado o rosto de medo da população”. Ninguém sabe por que está correndo – nem os policiais sabem o que está acontecendo –, mas todos correm, apavorados devido ao sensacionalismo da imprensa. Em outra canção, “Rotina”, Clemente já avisava que a TV nos diz o que fazer, do que gostar e como viver. E a conseqüência é que, depois de uma dose cavalar de lixo televisivo, chega a hora de nos desligarmos, como se fôssemos mera extensão daquela máquina de reproduzir bobagem. Dá ânsia, dá nojo, dá raiva, dá ódio, mas isso é tudo que ela pode dar, aludindo ao duplo sentido de “Nojo”, mais recente.

Gosto de dois elementos primordiais da obra dos Inocentes que estão sintetizados em “Pânico em SP”: o primeiro é que, embora saibamos que a confusão toda foi causada pelos meios de comunicação, não sabemos exatamente quem foi que soou esse alarme. E a essa pergunta junta-se outra, segundo elemento fundamental: o que é que estava acontecendo, afinal? Essas duas questões – parece-me – provocam o ouvinte a ficar analisando a letra da canção à cata de evidências que as respondam. E essa provocação é característica marcante de um gênero de rock cujas finalidades são, dentre outras, a eliminação da alienação, a conscientização do ouvinte e, finalmente, o questionamento da cultura dominante. Em palavras bem simples: melhor uma obra fundada em perguntas do que em certezas. Por que foi que “Ele disse não”? Quem são os verdadeiros agentes escondidos por trás do alarmismo dos meios de comunicação?
À cultura dominante, aliás, se opõe, de certa forma, a cultura popular, exatamente aquela pesquisada por Mário de Andrade e exposta no Centro Cultural. Digo “de certa forma” porque os estudiosos de literatura de cordel, por exemplo, acreditam que uma das características marcantes desse tipo de texto é a ausência da noção de autoria. Para facilitar a compreensão: nos textos tradicionais de cordel, repetem-se, ao longo dos séculos, temas, formas, métricas, versos quase inteiros, estruturas frasais consagradas pelos primeiros poetas e reproduzidas pelos que os seguiram. Antes que o leitor imagine que se trata de plágio puro, que dispensa talento do artista, lembre-se de que cada autor, ao longo do tempo, também contribui de maneira extremamente original, fazendo pequenas alterações, mudanças e supressões que vão sendo assimiladas. Trata-se, em suma, de texto radicalmente coletivo, quase único, embora escrito por diferentes autores ao longo do tempo, que pertence a todos, espécie de repertório popular que o versejador pode utilizar à vontade para dar sua contribuição: ali, de certa forma, quem fala, não é só um autor, mas o “povo”.

Muitos estudiosos entendem, portanto, que a cultura popular combate a cultura dominante não porque proteste deliberadamente contra ela, mas porque, em sua estrutura está representada essa cultura coletiva, oriunda das classes populares. Imagino que o fantasma de Mário de Andrade, ouvindo os Inocentes, terá suspeitado que se encontrava, ali, uma nova manifestação popular, de origem urbana.

Acho que não é equivocada a hipótese de que os punks alimentaram, sobretudo em São Paulo, uma espécie singular de cultura popular urbana – talvez inédita. Rejeitando todas as formas burguesas de arte e de comportamento, e utilizando-se da agressividade primordial do rock, os punks criaram uma forma de expressão extremamente violenta que ganhou cor especial no Brasil. Da mesma forma, como vimos, manifestações populares de literatura – como a literatura de cordel – fazem viver pela sua perpetuidade clamores autenticamente populares. Tenho a impressão de que no punk ocorre processo semelhante. Mais: a obra dos Inocentes utiliza-se dos canais da indústria fonográfica para resistir a ela, implodi-la, para questionar-lhe as bases, para fazer o ouvinte pensar sobre quem é que está por trás do sensacionalismo gratuito ou das certezas emburrecedoras dos meios de comunicação.

É evidente que a maioria das letras dos Inocentes são assinadas pelo Clemente e que seu protesto ocorre, em certo sentido, de forma diferente daquele que se observa na cultura popular, afinal ele é escancarado, isto é, nas letras parece haver o firme propósito de conscientização do ouvinte; inclua-se aí a urbanidade, as ruas, o cotidiano violento das cidades. Mas o aspecto radicalmente coletivo parece irmanar muitas das canções dos Inocentes à cultura popular.

O fantasma de Mário de Andrade deve ter se assustado com o volume do som, com as performances dos músicos, com a invasão do palco quando “Pânico em SP” foi executada. Tudo pode ter-lhe parecido extremamente violento e instintivo, irracional, como as reações de desespero da multidão urbana apavorada pelo som das sirenes e pelo aviso das rádios. Mas também deve ter percebido, logo depois, que a raiva pode salvar e que, no exato momento da invasão do palco, público e banda eram um só, como se esta fosse apenas porta-voz, amplificadora da cultura, das aflições e dos anseios daquele. Como se a poética dos Inocentes fosse a poética de seu próprio público, de autoria radicalmente popular, com pouco ou quase nada a perder, longe da irracionalidade e da alienação da multidão apavorada.