sexta-feira, 24 de abril de 2009

Mapa Musical


Não é de hoje que meu amigo Tiago Barizon bate na tecla de que um dos maiores problemas da música independente é a falta de informações que circulam a respeito de como se configura a cena. Ninguém sabe ao certo o tamanho desse mercado potencial, onde as pessoas descobrem novas músicas, como ficam sabendo das novidades, quanto gastam, onde estão.

Tão pouco se sabe a respeito de onde estão as bandas, o que elas acham da cena, quais as dificuldades que enfrentam, o que acham dos locais onde tocam... E por aí vai.

Essa falta de dados impede qualquer tipo de planejamento que se queira fazer e, o pior, impede o diálogo com a esfera pública e privada. Quando alguém reclama que a cena independente não tem apoio de governo e de empresas, Barizon nem tem o que responder. Se ele fosse de alguma empresa, não apoiava também! Empresas querem saber de números, público pontencial, quantas pessoas vão ser atingidas direta e indiretamente. Alguém sabe? Barizon acha que não...

Matutando sobre essas questões ele conversou com as amigas Pamela e Katia da Agência Alavanca e os três montaram o Mapa Musical (http://www.mapamusical.com.br/). Esse site vai ser o repositório de pesquisas e dados que serão coletados a partir dessas. Vão ser três formulários distintos, um para blogs e sites que tratem sobre música, um para bandas e um para o público.

Os resultados e as observações sobre esses dados também vão ficar disponiveis para consulta no mesmo endereço.

Em breve divulgarei aqui na Métrica mais notas sobre o andamento da pesquisa.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Dilei: viagem dialogada à roda de si mesmo e do Brasil

A primeira audição de Olhar o mundo com os pés, do Dilei, é suficiente para perceber o tema marcante da banda: o poeta-cancionista-andarilho, que sai da terra-natal à cata de novas experiências, de aventuras, de outros horizontes. É o que está rolando com os caras neste exato momento, em turnê por terras de Chile e Argentina.

É difícil encontrar uma canção ou um verso em que o tema da viagem não apareça. Apenas para exemplificar, em "Conta-Gotas", ouve-se o seguinte: "Aperta o passo, quanto mais a gente anda / Mais vai enxergar, / Não me importa em ser assim, / Um andarilho pobre e infeliz". Curioso perceber que, no universo das canções do Dilei, o andarilho não está sozinho, ao contrário do que poderíamos imaginar. Para ele, é fundamental um interlocutor com quem possa partilhar as impressões da viagem. Para o eu que canta, o caminho trilhado já é, por si só, meio de aprendizagem, que será sempre partilhada com alguém, sejam amigos ou entes queridos, presentes ou não.

Levando a hipótese ao extremo: talvez a origem da banda e de suas canções esteja na intenção de dividir com o ouvinte as experiências da viagem. Seríamos, portanto, interlocutores, "companheiros de jornada" do eu que canta em Olhar o mundo com os pés.

O eu que canta se vê, entretanto, como um andarilho "pobre e infeliz". Por quê? O senso comum a respeito das viagens nos diz que elas são motivo de alegria: quem viaja, de certa forma, foge à realidade e encontra a completude. É contrário do que acontece aqui: o eu vaga aleatoriamente porque está em dúvida, em aflição. A viagem, na obra do Dilei, não é um meio de "curtir a vida" inconsequentemente; a viagem é, sim, forma de busca de respostas.

É flagrante, primeiramente, que o eu sai à cata de soluções para problemas sociais que o provocam; trata-se de problemas que estão fora dele, claro está, mas que lhe ferem insistentemente os sentidos. É o que ocorre em "Geração": "Eu já sei onde isso vai dar, / Meu pessimismo é real / E nossas leis foram feitas / Pra quem tem grana pra pagar / Uma nova alienação / Disfarçada de consciência / Discursos inflamados, / Braços cruzados, papo pelo ar".

Por outro lado, o eu mergulha em si mesmo, na melancolia do "Fim de Tarde" ("Que bom seria / Se a vida fosse um pôr-do-sol na praia") e nas maravilhas da infância, em "4 meses e 1/2" ("A infância é como um livro relido / Na memória de quem sonha / Em todos os recreios, brincadeiras, / Sorrisos e soluços, / Há de haver uma criança contente / Em nossas recordações"). Aliás, é em canções como essas que se faz perceber a característica sonora mais marcante do Dilei: a riqueza dos arranjos, com pífano, bandolim, violoncelo, samples. Assista ao vídeo de "Fim de Tarde" - e perceba como o violoncelo remete diretamente ao cair do sol, na praia:




Todo esse universo é marcado pela imagem do poeta-cancionista-andarilho, daí a repetição de imagens como a do tênis gasto e a do jeans rasgado devido à caminhada. Essa imagem lembra bastante a do poeta romântico de terceira geração, à Castro Alves: embora mergulhado em si, o poeta se imbui da missão de levar a consciência aos leitores. Neste caso, melhor seria dizer "ouvintes companheiros de jornada".

Mas a semelhança do Dilei com os românticos está apenas na superfície - da mesma forma que é superficial analisar a obra dos caras apenas pela temática da viagem, que é marcante, mas não é tudo. Os elementos descritos acima são todos peças de um quebra-cabeças que vou tentar ordenar.

Ora, um disco cujo título é Olhar o mundo com os pés remete diretamente a um eu que tem os pés no chão, bem distante das fugas e devaneios românticos. Há canções com ricos momentos de lirismo, é claro; mas as aflições concretas do eu que canta se sobrepõem à temática fácil da "curtição da vida", da inconsequência adolescente, da viagem como fuga ao mundo - temas que poderiam emergir facilmente. Não é o caso. O que vemos em canções, como a já citada "Geração", ou ainda "Teu Jeito", "Peça pra Sonhar Antes de Dormir" e "Contradições" é um eu sensível, dilacerado pelos problemas sociais que o circundam - e que insiste em não se alienar. Em palavras bem simples: é impossível curtir a viagem se o mundo externo ao eu é cheio de injustiças.

"Contradições" é, de todas, a canção que mais me agrada. O eu põe definitivamente os pés no chão e escancara as contradições inerentes à vida, perguntando "Quem foi que te falou de algo bom sem lado ruim?" - sempre dirigindo-se ao ouvinte, parceiro de viagem que agora é alvo das vociferações, que exigem: "Senhoras, senhores, me aceitem como sou / Senhoras, senhores, não me perdoem pelo que sou". É o brado por meio do qual todos os conflitos do eu vêm à tona - ele deseja autenticidade, já vimos que ele rejeita a falsa consciência das gerações jovens.

Na sequência, surgem versos que talvez sintetizem a obra do Dilei: "Fingir não ser você, / Só te faz ser alguém pior / Adotar pra si uma postura inconsequente / Que te faz tão só". Juntando as peças:

Primeiro: a viagem do eu que canta é, antes, uma viagem interna, à roda de si mesmo, das próprias contradições, das próprias sensações e impressões do mundo - em suma, uma viagem à cata da própria identidade. Vem daí a rejeição, nos dois primeiros versos acima, à alienação e aos estereótipos. E vem daí, também, a vontade de viajar, agora concretamente, no espaço - trata-se de uma forma de conhecer os próprios limites.

Segundo: no mergulho em si mesmo, o eu se percebe sempre provocado pelas impressões externas, sobretudo pelas contradições sociais com que se deparou ao longo da viagem. É impossível, para ele, adotar uma "postura inconsequente", isto é, uma postura egoísta, preocupada apenas consigo mesma. E é extamente por isso que o eu que canta em Olhar o mundo com os pés está sempre em diálogo com o ouvinte - o contrário da postura inconsequente é dividir com outros as impressões da viagem. E se possível, sensibilizá-los quanto a questões sociais.

Terceiro: a origem da riqueza dos arranjos pode estar não só na multiplicidade dos lugares visitados pelo eu que canta, mas também nas experiências, impressões e culturas que ele vai coletando a cada parada. É o que faz do Dilei uma banda extremamente brasileira.

O Dilei extravia, portanto, o tema da viagem e da curtição fácil e alienada para os recônditos das contradições pessoais e sociais: Olhar o mundo com os pés é, a um só tempo, obra de desfrute musical pela riqueza dos arranjos; de desfrute poético, pelo lirismo dos versos; de sensibilização social do público, pela preocupação com o mundo e pelos pés no chão.

domingo, 1 de março de 2009

Porcas Borboletas e a nossa tradição irônica

No texto anterior, a análise de uma canção do Guilhermoso Wild Chicken levou-nos a investigar alguns aspectos de uma tradição bastante forte do rock brasileiro: a irônica, a dos roqueiros nacionais "bocas do inferno". Essa tradição - talvez iniciada pelos Mutantes, exímios ironistas - carece de mais pesquisas, pois não é improvável que a criação de letras engraçadas e críticas ao mesmo tempo remonte a artistas mais antigos, até de tempos em que não havia rock por aqui.

Há, na cena independente brasileira, várias bandas que se destacam nessa arte. Na sexta passada, esteve em São Paulo, tocando na Outs, a banda Porcas Borboletas, cuja "Lembrancinha" pode ser ouvida no Myspace dos caras. Abaixo, a canção vai ao vivo, mas o som não está cem por cento. A letra é curta, simples e hilária - o refrão é uma crítica ácida ao consumismo: "Ah, se eu pudesse escolher, eu preferia um Nike":



Para reconhecer a ironia - sempre levando em consideração que ser irônico é dizer exatamente o contrário do que se quer dizer -, é necessário investigar as estrofes. "Mamãe, te amo / Mas podia ter te amado / muito mais naquele dia / em que pela porta entraste / trazendo nas mãos / uma grata lembrancinha": do ponto de vista da linguagem, os elementos são flagrantes - o tom de carta de família, subitamente interrompido no segundo verso, em que o ouvinte descobre que a relação afetiva está condicionada ao presente recebido; a flexão da forma verbal "entraste" na segunda pessoa, que confere ao texto uma solenidade artificial, também reforçada pela entonação de voz; a expressão toda clichê "e nos lábios, os dizeres"; finalmente, o diminutivo carinhoso do título, a "lembrancinha", antecipada, agora, pelo ainda mais artificial adjetivo "grata", assume sentido extremamente irônico, já que o presente oferecido pelos pais ao eu que canta será aceito, mas desvalorizado no refrão.

Na segunda estrofe, alcança-se, mais uma vez, a ironia, por meio da fala da mãe, orgulhosa do amor que dedica ao filho, medido pelo presente que lhe oferece: "Toma, meu filho, é pra você. / E isto prova que mamãe e papai / te amamos muito / muito muito / mas agora é tarde / e eu vou dormir". Versos curtos para dizer muita coisa: a prova de amor ao filho é meramente material; não é à toa que, no refrão, a singela criança rejeita o presente, afinal, se a medida do amor está num produto, para sentir-se amado é mais que fundamental que ele seja caro, ou que seja aquele que traz mais status - no caso, a marca mais famosa. Coisas do mundo do capital.

Os leitores que notaram que a mãe vai dormir logo depois de presentear o filho já terão sacado que há aí, também, uma crítica ao trabalho excessivo, que toma aos pais tempo de ficar com os filhos, a quem só resta serem amados por meio de presentes.

A força da canção dos Porcas Borboletas, entretanto, vai além dessa crítica: há, ainda, a citação a versos de "Chavão abre porta grande", de Itamar Assumpção - o que abre novas portas interpretativas. À primeira vista, em "Lembrancinha", a banda Porcas Borboletas criou uma canção bem-humorada, irônica; depois, sem perder a piada, acabou fazendo crítica forte à lógica irracional do capitalismo, em que a medida do amor está no preço dos produtos-mercadoria; finalmente, ao citar um dos participantes da Vanguarda Paulistana - uma das gêneses inspiradoras da cena independente atual -, o conjunto se insere na tradição da nossa música experimental, livre das amarras da indústria fonográfica, tocando adiante a obra de mestres como o próprio Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé (com quem a banda se apresentou recentemente) e o Grupo Rumo, do compositor e professor Luiz Tatit, cuja obra a respeito da canção brasileira não canso de citar.

De fato, é verdade que chavões - isto é, clichês - abrem portas (interpretativas) grandes: os termos "entraste", "nos lábios, os dizeres" e o próprio título "lembrancinha" são lugares-comuns que nos encaminham para as críticas e ironias da canção.

Ainda mais do que isso: os versos "Não adianta vir arreganhando os dentes para mim / Porque sei que isso não é um sorriso", de Itamar Assumpção, podem aludir ao sorriso dos pais (que presenteiam) dirigido ao filho presenteado, retomando a ideia da relação afetiva orientada pelo universo material. O sorriso não é sorriso: é obrigação, ameaça, contrato assinado de dever cumprido.

Em "Penso logo existo, penso que existo / Penso que penso, penso que penso" podem ter o mesmo efeito, escancarando a alienação dos que estão sujeitos às relações afetivas esmagadas pelo dinheiro.

Finalmente, "Quem não vive / tem medo da morte" e "De repente o amor de sempre / Não era mais suficiente" desvelam, agora a sério, sem as ironias, o desmoronamento da relação dos pais com o filho já analisada nos versos anteriores. Do ponto de vista sonoro, nas estrofes, uma levada de música de sala de jantar, música-ambiente, indica sarcasmo rasgado dirigido à família tradicional. No refrão, o arranjo é pura alegria. De um lado, a letra escancara a falência das relações; de outro, no plano sonoro, permanece o bom mocismo decadente e encobertador da família artificialmente feliz. Ironia pura, do ponto de vista cancional.

Se ouvirmos o disco inteiro dos caras, descobriremos a ironia aos métodos emburrecedores de aprendizagem de inglês em "Sunday"; a análise da vida urbana em "Por um triz" e "Protegimento"; a experimentação dos limites sonoros e significativos da palavra em "Vernissage", "Chamada" e "Terminal Central"; o escancaramento da pessoa-produto em "Pessoa Linda" (essa merece uma análise só para ela), em que o escancarar de dentes que parece sorriso é retomado; e "Eu", texto de Arnaldo Antunes publicado no livro as coisas, de 1992, musicado pelo Porcas Borboletas de forma sensível, que nos faz entender o quão pequenos somos no mundo. Um disco inteiro bom, destinado a tornar-se clássico, daqueles que se ouve durante meses, talvez até mais tempo, com a ordem das canções na cabeça; daqueles que acabam marcando e demarcando um determinado momento da própria vida de quem ouve.

Retomando a tradição da Vanguarda Paulistana; trabalhando com as palavras sob a influência de poetas de grande quilate (não é à toa que, nas semanas que virão, o letrista Danislau Também participará de recitais poéticos com Chacal, poeta da emblemática geração de 70 da poesia marginal), mas já alcançando-os e até superando-os; usando o riso para fazer crítica, sem cair na esculhambação e no pastelão; mergulhando em toda ordem de experimentações sonoras; preocupando-se sempre com a crítica e com a formação do público; e, para terminar, fazendo um espetáculo que impressiona pela performance, os Porcas Borboletas enriquecem a cena idependente e acotovelam a canção brasileira desinteligente, alienada, sentimentalóide, aprisionada por sonhos de Nikes, forrada de humor que não faz crítica.

Trata-se de borboletas pela sonoridade poética; trata-se de porcas pela sujeira que trazem à tona em suas críticas - e quem é que precisa de mais do que isso?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Guilhermoso Wild Chicken: Severino, crítica e diversão

Na última edição do Thunderview, Thunderbird entrevistou Guilhermoso Wild Chicken. Quem assistir ao programa certamente terá uma impressão no mínimo curiosa deste que se intitula “O Frango Selvagem do Rock and Roll” – e talvez não o leve a sério, por causa das piadas (que o entrevistador do Showlivre não para de alimentar) e dos grasnados que emite rapidamente. Certamente, o som de Guilhermoso é feito para dançar e se divertir, com influências dos clássicos do rock das décadas de 50 e 60:





Quem já assistiu a uma apresentação do Guilhermoso ou ouviu a letra de “Severino”, entretanto, terá percebido que, na obra do Frango, nem tudo é festa e tiração de sarro: em muitos shows, ele é tomado de selvageria absurda e tira quase toda a roupa, numa performance que beira a profanação do próprio espetáculo; em “Severino”, um dos grandes temas da literatura brasileira, o retirante, ganha forma de rock com versos em português.

Não será um erro dizer que o rock nacional namora o que poderíamos chamar, plagiando o defunto-autor de Machado de Assis, de “pena da galhofa”. Em outras palavras: algumas de nossas bandas são extremamente irônicas e humorísticas nas letras. Lembremos, apenas a título de exemplo, do Ultraje a Rigor (leia texto a respeito da ironia na obra do Ultraje clicando aqui) e do Camisa de Vênus; muito da identidade e do brilho desses conjuntos está em dizer o contrário do que se quer dizer (é essa a definição de ironia), além de seus letristas serem autênticos piadistas em alguns momentos - ouça “Marylou”, do Ultraje, ou “Deus, me dê grana”, do Camisa:





Pode-se dizer que ambos, Roger e Marcelo Nova, são mestres da associação do riso com a crítica.

Não confundamos, entretanto, o humor ácido de Roger Moreira e Marcelo Nova com bandas como os Mamonas Assassinas – cuja esculhambação acaba por perder o sentido. Sem juízos de valor sobre os Mamonas (embora, a mim, particularmente, eles nunca tenham agradado), não parece um equívoco dizer que a postura crítica, acentuada pelas ironias, que marcam as canções do Camisa e do Ultraje, passa longe das obras dos Mamonas.

Pois bem: Guilhermoso está no limiar entre esses dois polos, o esculhambado e o crítico ácido. “Severino” é a versão brasileira do Johnny, do clássico “Johnny B. Goode”. Na canção de Chuck Berry, um jovem guitarrista da Louisiana sai de casa à cata de sucesso:





Na do Frango Selvagem, Severino vai “Descendo o São Francisco, lá no meio do sertão” e “Gastou sua sandália nem conhece avião”:





Trazendo para o rock o universo sertanejo, Guilhermoso dá um tiro certeiro: ele não deixa que a canção fique melancólica no ritmo ou na letra. Ela fica, ao contrário, divertida, já que a imagem da cultura brasileira, em comparação com o glamour norte-americano, sai sempre perdendo: “O jegue tá cansado já andou que nem camelo / Severino vai levando só tem osso falta pelo”. Não temos aqui o cowboy heróico nem seu cavalo fiel e inteligente dos faroestes ianques; temos, isso sim, um jegue cansado e um sertanejo em pele e osso. O leitor que está daí a torcer o nariz para o Frango Selvagem e para mim não se esqueça de que a tiração de sarro, antes de mais nada, põe em evidência o falseamento daquele glamour estrangeiro.

Em resumo, é possível dizer que, utilizando-se do rock, gênero norte-americano por excelência, e do tema do retirante brasileiro, Guilhermoso expõe o besteirol que nos é vendido pela indústria cultural dos Estados Unidos. Há ainda um outro detalhe: os nomes de que o Frango Selvagem é fã remetem às origens do rock, muito mais negras e populares do que qualquer outra coisa. O historiador Eric Hobsbawn, na sua História Social do Jazz não cansa de afirmar que, nas origens do rock e do jazz, as canções mais políticas não eram as que faziam protesto explícito, mas aquelas em que era retratado o cotidiano das populações americanas mais pobres.


Talvez a canção de Guilhermoso tenha importância exatamente por deixar de lado o protesto tão conhecido do público brasileiro (tome-se como exemplo o “Funeral de um lavrador”, em canção de Chico Buarque com versos de “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto), para mergulhar no cotidiano do sertanejo, conforme a sugestão de Hobsbawn, mas sempre com o toque de humor e ritmo animado, dançante: “Me contou sua história muita dor e cicatriz / Sua vida é um milagre só tá vivo por um triz” ou “Severino caminhando sol a sol pela caatinga / Rapadura muita fome e um gole dessa pinga”.

Nem por isso ficam de lado as imagens cruas que podem ser recolhidas na vasta literatura a respeito dos retirantes. “A sua esperança já perdeu quando criança / Vida estranha muito estranha, mas é essa sua dança”: eis aí versos em que se percebe com clareza a ideia da sina, do suposto destino inalterável do sertanejo – Fabiano, personagem de Vidas Secas, de Graciliano Ramos repete ao longo de todo o texto que sabe qual é “seu lugar”, que sabe que nasceu “para servir os outros”, sem que seu destino possa ser mudado. E é exatamente em momentos como esse que a canção de Guilhermoso não cai na pura esculhambação – ainda que esteja eivada de humor.

Os versos da última estrofe talvez sejam os mais críticos da canção: “E a gente vai tão de repente nem parece repentista / Na história tá escrito: Tiradentes foi dentista”. Uma interpretação possível é a de que o Severino que “vai e não olha pra trás” chegue tão abruptamente à cidade, que se veja alienado da cultura musical sertaneja, daí a alusão ao “repentista”, que não guarda nenhuma relação de sentido com “dentista”, palavra com que rima. Pode-se ver, nesse trecho, a mesma sensação de Macabéa, personagem retirante de Clarice Lispector em A hora da estrela, que conhecia trechos da história universal e brasileira por meio da rádio-relógio, mas que se esquecera das cantigas de roda do sertão.

Fabiano, Macabéa e o Severino do Guilhermoso são personagens da literatura e do rock do Brasil – todas elas não conseguem vislumbrar uma alternativa de futuro, nem ser agentes do próprio destino. Utilizando-se de elementos clássicos do rock das décadas de 50 e 60 para debater um tema considerado “sério” na literatura brasileira, o Frango Selvagem do Rock and Roll (brasileiro) comete uma profanação fundamental para rechaçar a sisudez conservadora dos nossos intelectuais: mostra que é possível fazer crítica bem-humorada, forrada de rock and roll.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Novo blog da Identidade Musical

O amigo Tiago Barizon e eu seremos os redatores do blog da Identidade Musical, que entra no ar hoje. A proposta é ousada: além de dar continuidade à publicação das colunas da Máquina do Tempo (que já estão disponíveis, também, no blog), debateremos a cena musical independente e divulgaremos bandas, shows e eventos musicais. Longa vida ao novo blog!

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Apontamentos para a história do rock brasileiro - Parte II - Los Porongas e a formação do público


Assistir ao show de lançamento do DVD dos Los Porongas no SESC Pompéia na última quinta-feira, dia 12 de fevereiro, foi uma revelação para o público que estava lá – embora talvez nem todas as pessoas tenham percebido a importância do evento de que faziam parte.

Não é a primeira vez que os acreanos aparecem aqui na Métrica (leia análise da canção “Nada Além” ou o comentário sobre show da banda na Virada Cultural no palco independente, em 2008). Já foi dito por aqui, por isso é desnecessário repetir, que Diogo Soares talvez seja o maior poeta da nova geração do rock brasileiro; do mesmo modo, é um pleonasmo afirmar que a banda, pela postura sonora livre da lógica das grandes gravadoras, aponta para o futuro da canção brasileira. Isto é: aponta para o Cruzeiro, poderíamos dizer - sempre lembrando que, na bandeira brasileira, a constelação do Cruzeiro do Sul está representada como se fosse observada por um observador hipotético, que não estaria na superfície da Terra.

Acertadamente, no documentário Música de Trabalho, de Daniel Dias (assista ao filme inteiro no You Tube clicando aqui), Lobão afirma que a canção independente é “a trilha sonora" deste tempo e que, no futuro, é nela que os historiadores buscarão a definição do início do século 21:




Arrisco dizer que, nesse estudo vindouro, talvez os Porongas figurem nos primeiros parágrafos, ou ganhem um capítulo todo para eles.

Trata-se do seguinte: quem assistir ao DVD encontrará a canção S.O.S, de 1981, do Grupo Capu, provavelmente desconhecido da maioria dos leitores paulistanos – e deste autor também, até a última quinta. Segundo Diogo, essa banda pode ser considerada a precursora do rock autoral no Acre. O som é rock puro, pesado, sem frescuras, de letra atuante, com um pé no imaginário psicodélico dos anos 70, com espaçonave que cai e impressiona o povo, e outro no Brasil do presente e do futuro, que não muda de jeito nenhum: inflação e dólar que seguem prejudicando o povo que “paga para nascer”, “vive por viver” e “vive de aluguel”. Em palavras simples: a pegada do som e a letra seguem atuais, talvez porque o Grupo Capu, há quase trinta anos, podia observar o Brasil por dentro e por fora - e já percebia que o país não mudaria tanto quanto se esperava.

Mais marcantes, entretanto, são os comentários do baterista Jorge Anzol no making off do DVD – extremamente emocionado com imagens dos Porongas tocando com o baterista do Grupo Capu, Hermógenes, no Festival Varadouro de 2008, a que o leitor pode assistir abaixo:




Talvez o próprio Anzol e seus parceiros de banda não saibam, mas aquela passagem de baquetas e a gravação de S.O.S. no DVD escrevem um capítulo na história da formação de um público inteligente do rock nacional.

Explicando: pagar o tributo para uma banda local – que talvez só não tenha feito sucesso na década de 80 devido à impossibilidade de ingressar no Eixo Rio-São Paulo de rock, porque não podia contar com a internet e todos os recursos que conhecemos hoje – é uma forma de criar tradição, de ensinar ao público que não interessam apenas os últimos sucessos radiofônico-descartáveis. Mais importante ainda: é uma forma de ensinar ao público de São Paulo essas lições.

Numa edição recente do Thunderview, Daniel Belleza afirmou que o público da capital é careta e não quer conhecer bandas novas - nem as do Acre:




Belleza está coberto de razão ao dizer isso. Prevalece nesta cidade a lógica de mercado e do consumo rápido, o que leva, segundo o mesmo Daniel Belleza, à ausência de festivais de música independente por aqui e até à omissão das grandes bandas, que deveriam abrir espaço para as pequenas.

E é aí também que os Porongas são grandes: em lugar de gravar no DVD uma canção com suposto “apelo de mercado”, de uma banda grande, o que poderia “potencializar as vendas”, resolvem os acreanos reverenciar os conterrâneos que, de certa forma, iniciaram o sonho do rock fora do eixo das grandes capitais; em lugar de render-se à lógica da estética vendida do mainstream paulistano, deixam claro no DVD que têm uma marca forte que trazem do Acre – a sua “contradição primeira”, a “urbanidade amazônica” – e que não vão despojar-se dela.

“O rock, antes de ser um som, é uma atitude, e acredito que o Acre seja rock n’ roll na sua essência”, afirma Diogo no DVD. Acreditemos no vocalista: na essência da postura e da sonoridade, os Los Porongas são combativos, porque não se rendem aos apelos fáceis para conquistar o público – preferem, ao contrário, formar o público mostrando a ele a pluralidade em detrimento da massificação de mercado; optam pela tradição e pela reverência aos mestres em vez do consumo rápido da arte de plástico das grandes gravadoras, que apresentam ao “mercado” uma novidade envelhecida por semana.

Aprendamos em São Paulo, portanto, como é que se forma público de rock – tentemos aprender a correr pelas ruas como se corre pelos rios, rumo ao Cruzeiro. Observado, evidentemente, pelos Los Porongas, que fazem parte de nosso tempo e de nosso país, mas que têm a capacidade de transportar-nos para fora do aqui e do agora, para que pensemos a respeito do Brasil, olhando-o, criticamente, por dentro e de fora.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A Cidade e o tempo

O lançamento do DVD dos Inocentes, cuja gravação já comentei, o aniversário de São Paulo e a regravação da canção "A Cidade não para" pelo Julia Car pediam um texto no Identidade Musical. Leia clicando aqui.