quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Um pouco de desesperança no coração

Sinceramente, não ligo muito para a época de Natal e Ano-Novo. Não sou religioso, perdi faz tempo a crença em instituições religiosas quaisquer e irritam-me bastante obrigações como comprar presentes para participar de amigos-secretos. Mas sempre vejo nas comemorações do final de ano uma chance de reunir membros da família, amigos ou colegas de trabalho com os quais não tenho a chance conversar longamente. Interessam-me as pessoas, pouco me importa a data. Não posso dizer que não sou tomado pelo otimismo, pelos projetos futuros e pelo sonho de que a mera troca de algarismos possa trazer algo de novo à vida. Na verdade, o que me revolta bastante é a onda de esperança que se pode respirar na cidade: esperar passivamente me cheira a falta de atitude, a conformismo, que nada têm a ver com rock n’ roll.

Uma obra literária que partilha desse otimismo todo é Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Talvez os leitores se lembrem brevemente do enredo: Severino, retirante que parte rumo ao Recife, deixa para trás a violência e a crueldade da seca; ao longo de seu trajeto rumo à capital, ele se depara diversas vezes com a morte, que é, até, meio de vida em algumas cidades. Ao chegar ao Recife, à beira do suicídio, Severino maravilha-se com a “explosão da vida”: em um dos mocambos que existem entre o cais e a água do Rio Capibaribe, ele é contagiado pela alegria de um pai cujo filho acabou de nascer. Daí para frente, só dá vida, numa alusão direta ao nascimento de Cristo. O texto termina numa enfiada de otimismo que, para mim, nunca colou, apesar de todo o valor que tem esse texto literário.

A essa “explosão da vida” em pleno bairro miserável de Recife, respondem Chico Science e Nação Zumbi, com brevidade: “Num dia de sol, Recife acordou / Com a mesma fedentina do dia anterior”, em “A cidade”, canção do CD Da lama ao caos, cuja música título ensina que, com o bucho mais cheio, é possível pensar que organizando, podemos desorganizar; que desorganizando, podemos organizar. Para mim, está enunciada aí a função de qualquer manifestação artística inconformada, especialmente do rock nacional: desconstruir o que está posto, como se fosse uma verdade intocável, para que se possa organizar outra realidade, diversa da anterior – de preferência, com as pessoas de bucho mais cheio.

A história do nosso rock como um todo, aliás, pode ser chamada de muita coisa, menos de esperançosa, de passiva ou de respeitadora da “organização” (salvo, é claro, as manifestações estritamente inseridas na lógica de mercado; nessas, não pulsa vida pensante de quem se revolta: pulsa uma máquina registradora). E me parece que deve ser assim mesmo: o êxtase com a árvore de natal do Ibirapuera, com as luzinhas nas casas e nos prédios dos bairros nobres da cidade, com a aceleração das compras nas semanas de dezembro, tudo isso me cheira a escamoteação de uma realidade bem menos otimista do que gostaríamos. O primeiro dos primeiros exemplos para confirmar essa hipótese é sempre o Papai Noel dos Garotos Podres, aquele que enjeita os miseráveis, cospe nos pobres e presenteia os ricos. A banda do ABC, nessa canção, inverte a lógica da esperança: é preciso seqüestrar e matar o bom velhinho, punir esse “porco capitalista” por esquecer-se dos pobres. Agrada-me esse assassinato simbólico do ícone natalino: já estava na hora de alguém escancarar o lado do Natal que ninguém quer ver, que não aparece na “telinha da Globo”, porque foge ao padrão de qualidade que rende Ibope.

(O leitor deve estar achando que estou de mal com a vida, ou que minha família não me dá presentes no dia 25 de dezembro. Não é nada disso. No exato momento em que escrevo estas linhas, as notícias mais lidas no Caderno Ilustrada da Folha Online são as seguintes: “Surpresas e emoção marcam show de despedida de Sandy e Junior”, “Irmã de Britney Spears de 16 anos está grávida”, “Saiba o que vai acontecer nas novelas desta quarta”, “Campanha da Louis Vuitton traz Naomi Campbell e Claudia Schiffer”, “Canal Sony exibe hoje final do reality show ‘Brazil's Next Top Model’”. Precisamos ou não de uma injeção de desesperança em nosso coração, nesta época do ano?).

Eu me lembro muito bem do que aconteceu com João de Santo Cristo quando ele chegou a Brasília, fascinado com as luzes de Natal: trabalhou por miséria, percebeu que tudo o que ministro dizia no rádio era mentira, meteu-se num negócio escuso com Pablo, foi corneado pela namorada com quem ia se casar e acabou morto com um tiro pelas costas, num duelo contra Jeremias – um falso profeta que dizia que era crente, mas que não sabia rezar. Isso porque o nome do cara era João de Santo Cristo e porque o natal é suposta data de “renovação”. É evidente que, na canção de Renato Russo, também há uma idéia de subversão do imaginário natalino -esperançoso: acho que das muitas versões do herói do natal, a da Legião Urbana é a única em que o cara que leva Cristo no nome tem ódio no coração. Não é à toa que ele é declarado santo pelo povo: sua capacidade de revoltar-se contra as instituições que o oprimiam vinham desde a mais tenra idade – ele adquiriu ódio no coração quando seu pai foi morto por soldados; na escola, até o professor com ele aprendeu; ele ia pra igreja só pra roubar o dinheiro que as velhinhas colocavam na caixinha do altar. Também não é por acaso que a alta burguesia da cidade não acreditou na história que viu na tevê: não havia na trajetória do Santo Cristo os traços de idealização da pobreza que abundam nas novelas.

Um aluno meu, doutor em filosofia, me disse na semana passada que o trabalho de André Comte-Sponville, filósofo francês de que sou fã, não é muito sério. Pode até ser verdade, mas indico o livro A felicidade, desesperadamente a todos os leitores (talvez seja um presente de Natal mais interessante do que o velho vale-cd ou a peça previsível de roupa). Nessa obra, desconstrói-se o sentido da palavra “esperança”, tão associada a esta época do ano. “Esperar é desejar sem saber”, diz o francês, e concordo: esperamos demais – um país melhor, um amor avassalador, um emprego digno que pague bem, etc. – e agimos pouco. O trecho final do texto é a mensagem que deixo aos leitores neste final de ano:

“Trata-se, na ordem teórica, de crer um pouco menos e de conhecer um pouco mais; na ordem prática, política ou ética, trata-se de esperar um pouco menos e de agir um pouco mais; enfim, na ordem afetiva ou espiritual, trata-se de esperar um pouco menos e de amar um pouco mais”.

O rock brasileiro ocupa um capítulo especial na história de nossa canção: o capítulo dos inconformados que, em face de algumas datas, ocasiões e manifestações, sempre apontam um caminho alternativo, em que não prevalece a esperança passiva, mas a ação por meio da música.

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